segunda-feira, agosto 22

Cidadão







Um bom dia de coração para todas as gentes do bem. Pois vejam queridos, ganhei identidade virei feliz, homem do cerrado. Terra que me abraçou como cria.
Engrossei couro, curti pele sob o sol mais bonito das paragens.
Meu peito em alegria pula dança de aleluias, revoada de tanajuras, maritacas, bicos-de-lacre, andorinhas da patagônia, migratórias como eu. Elas se vão eu, guardei pouso, fiquei
Posso assim agora responder firme: De onde seo moço? Por onde?
Uberlândia digo altivo olhar fincado em quem perguntou. O erre sai raspado como da origem, ligo não, Uberrrlândia, lá/ali na ponta das Minas, aqui bem dentro do peito. Alma acalmada por naturalidade possuir. Os filhos fazem as vezes do cantar a palavra nascidos/criados. De papel passado Uberlândia

Cá cheguei manso, não de paz de medo. Um novo grande por demais. Um vasto sem serras que me mostravam distâncias. Olhava, não via fim. O céu encostava em um lá longe, como mar fosse. Estranhamento.
A seca de secar com vontade, a temporada maravilhosa das chuvas, o renascer a olhos vistos. Descobri lento alguns de seus segredos. Outros ficarão para sempre em baús, caixas guardadas.
O sol nascia do pasto, olhar reto. Depois a lua. Não tem igual em grandeza e clarão-ouro. Outro vazio no começar. As gentes. Distantes desconfiadas, não era filho de ninguém, carregava sobre nome difícil, estrangeiro.
Morar em pensão, conhecer devagar o jeito daquele que tinha, sem maldade porém seco no começar. Conquistas
Tempo se vez marca. Conheci afinal as cozinhas e quintais. Vi o escondido, reservado para poucos. O jeito mineiro de ser dessa Minas que ainda não era minha. Portas e sorrisos se abrindo. Ganhei a confiança. Passei pra dentro.
Apaixonei, casei, descasei, nunca desapaixonei/desamorei, sentimento fraterno/eterno. Filhos lindos, da terra nova nascidos. Raiz profunda criada, A bruteza bela do cerrado. Me tornei pequizeiro, barbatimão, Buriti, Mangaba, mutamba, jatobá. Me tornei munguba, ipê de todas as cores, a aroeira - aqui não pica-pau. Posso peroba-do-campo, timbó sem veneno.

Me colori em penas e pelos me tornei um deles: onça, ema, sagui cobras cascavel, jiboia e jararaca.Solitário com lobo-guará, cachorro-do-mato, arredio que nem Bandeira.Me vejo tucano-rei, urubu-rei, perdiz. A arara-canindé, pato do mato, canarinho-da-terra.

Banhei em cachoeiras onde ninguém vê serra, parecendo brotar do chão. Aprendi vastidão. Saí de casulo apertado de maravilhosas montanhas, conheci chance de ter duas moradas. Dois sotaques, dois jeitos. Me tornei mais livre, de Barbatimão, Capim Gordura para fartura de Colonião, napié.
Me perfumei de tantas flores, êxtase de abelha jatái

O céu mais lindo me cobre, as noites mais iluminadas de estrelas e sons que só aqui existem. Urutau cantou em minha janela. Caburezinha em vigília, zela.

E as gentes. De tudo quanto é canto, recanto perturas/lonjuras. Um misturado de jeitos. Custa conhecer. as Minas aqui desconfiadas são, tem que ganhar confiança, provar a que veio. Se em paz para somar, logo vira de casa.
Agora com orgulho posso contar. Sou filho da terra, mãe de leite. Me deu sustento, base, referência. Meus amigos, de cá e de lá. Carrego a felicidade de não apenas me sentir, mas, mesmo por decreto, de ser agora uberlandense.






Jornal Correio em 21 de agosto de 2016

terça-feira, agosto 16

Passagem



Pois assim, tem cada coisa que acontece em nossas vidas que chegam a dar frio na espinhela. Os ritos de passagem, a ordem do tempo e o jeito que se apresenta é regra na vivência de humanos e não humanos. Bichos por exemplo. Passarinho nasce numa dependência danada de pai e mãe. Tem que comer. Abre imenso bico para chamar atenção e ganhar mais grilos, minhocas ou o que vier de longe, trazido no papo de seus guardiões. Passa tempo na preguiça. Empluma, muda pio. Chega hora, mesmo a contragosto, empurrado, tocado do ninho é. Primeiro voo solo despenca. Mas apruma, toma gosto e não para mais. Primeira passagem.

Depois, aulas de canto. Do desafinado piar a gorjeios insossos, desafinado num trocar de voz.
Torna-se tenor, barítono ou outro especialista. Segunda passagem. Aprende a namorar, conquista a parceira e leva a vida bem vivida, se não houver interferência de mão de gente a prendê-lo em gaiola, pedra de estilingue ou queimada assassina a lhe impor fim. Peguei passarinho, mas reparo em qualquer criatura. Taruíras, minhas preferidas, gatos, cães, morcegos e até escorpiões e borboletas. Todos têm ritmo, harmonia de vivência.

Poderia ser diferente com as gentes? Toca falar de rituais diferentes que nos são apresentados, bons e ruins, pouco naturais, mas presentes.

O estúpido aprender a fumar foi um deles, mas naquele tempo era assim, todos fumavam. O motivo? Fazer parte de um grupo, fingir de pavão para as moças e tantas outras bobagens importantes nas cabeças desmioladas de pré-adolescentes. Fazia-se a rodinha e os mais velhos acendiam o pito. Os iniciados tinham que botar a fumaça pra dentro, segurar e ainda falar o nome de cada um ali presente sem soltar um tiquinho que fosse da baforada. Isto feito soltava tudo de uma vez.

O mundo girava ao seu redor. Uma vontade de passar mal segurada para não fazer feio. Alguns caíam de bunda no chão e tossiam os bofes. Pronto, passou. Agora era treinar e fumar até dar picumã nas narinas. Felizmente todos de nosso grupo pararam logo e hoje fumar encanta cada vez menos gente. Fumar significa hoje uma grande caretice catinguda. Uma passagem.

Qual adolescente que não sonhou com os 18 anos para poder tirar habilitação? Carro tinha não, mas habilitação era um troféu a exibir. E entrar num bar e pedir uma cerveja? Tem dezoito? Perguntaria o garçom. Com ares de grande ator apresentava a identidade fingindo enfado. Assistir filme proibido para menores, conquista! Outra travessia.

Mil outras para mostrar, pois a vida é regrada por muitas. Porém, uma em especial me marcou. Um belo dia entrei na casa dos sessenta. Recente, mas aqui estou. Nada de lugar comum, do tipo “Sex-agenário” em demonstração clara de tentar gritar ao mundo “oh, eu dô conta viu!?”. Nada disso.

Ao colocar o pé em minha terceira juventude, corri para conseguir o cartão de estacionamento para idoso. Senti-me aquele menino da porta do cinema, pronto para assistir “Último tango em Paris”.
Orgulho de cabelos grisalhos e da vaga ali me esperando. Tudo ia muito bem, até que um belo dia um amigo me perguntou:
— Cara, você vem aqui todo dia, certo?

Acenei um sim desconfiado.
— Você vem fazer o quê mesmo?

Correr 5, 10, 15 Km, às vezes, dependendo da disposição.
— Então, me explica o motivo de ocupar vaga de idoso?

— Uai, é direito adquirido, tenho sessenta!

— Direito é, mas é justo? Você vem aqui correr 10 km e quer parar aqui? Deixa para idoso que mais precisa, aquele que tem dificuldade de se locomover. O que são mais 100, 200 metros para quem vai detonar duas, três ou mais léguas?

Pois olhe, não parei mais em tais vagas. Acima do direito adquirido, a consciência não permitia. Fico triste quando vejo um mundo de gente nova usando irregularmente vagas reservadas para idosos e/ou deficientes físicos na cara dura. Nada como um olhar de fora para te mostrar caminhos.

Uso mais não. Ali não. Obrigado amigo Otolini. Graças a sua sensata observação subi mais um degrau na escada do viver. Outro ritual interno. Bela passagem.






Jornal Correio 14 de agosto de 2016

segunda-feira, agosto 8

Capotraste



Nossa língua é uma viagem. Já observaram quantas palavras soam como uma coisa e na verdade é outra totalmente diferente? Pensei aqui algumas que sempre me levavam a outro lugar e as compartilho com você, que tem a paciência de ler minhas elucubrações. Pronto, aí já está uma das recolhidas na tarrafa da curiosidade. Tá certo que ela significa exatamente o que quer dizer, mas pense que louco, se você passou a noite estudando, você elucubrou pra caramba. Sabia? Porém essa é um nadinha de nada.

Ando com uma “osfresia” danada. Meu Jesus Cristim, já procurou um médico? Tenho um amigo que quase morreu disso. Ainda mais se for acompanhada de “iscnofonia”, aí, lascou. É, acho que você tem razão, vou ligeiro. Será que isso pega? Vou avisar o pessoal do laboratório, pois vai que passei isso para alguém, quero carregar culpa não. Ouvi contar que chá de “ginge” é bom para esse trem. Ponha umas gotinhas de “abléfaro” que passa em dois tempos.

Bom, estimo melhoras. Vou aproveitar o bom tempo e ver se aproveito o manso do rio para um “náfego” tranquilo. Cuidado com o “Zafimeiro”, dizem que em agosto ele anda solto pelos cantos, um perigo.
Vale puxar reza, senão novena. Esse agosto é de agouro marrento, redemoinho e sacis a solta, é de tomar cuidado, vigília.

Vou-me antes do acainhar dos cães no trecho e, se tiver sorte, ainda pesco meia dúzia de “arúspices”, já que é tempo delas. Dá uma moqueca de lamber beiço.

Pois não é? Cada palavra no seu galho. Só não entendo os motivos pelos quais elas me levam a pensar longe coisa que não é, mas lembrança faz nascer. Tem língua mais repleta de histórias e passagens de Marias-Fumaça do que a nossa? Querida e rica língua pátria. É “acontista” de nascença.

Outro dia, meu filho me apresentou uma. Ao sair apressado para buscar um capotraste, perguntou a passadas se eu queria alguma coisa. Pensei ligeiro, pois estava mesmo com fome e, ainda sentindo o vento de sua saída, respondi:

Traz um pra mim também. Pode ser mal passado! Atentei que ele parou. Quietou alguns segundos e voltou de fasto. Colocou só a cabeça pra dentro e, com sorriso armado, perguntou:

Como é que é? Aí, falei: uai, pode não? Estas coisas se não forem malpassadas perdem o gosto.

Pai, capotraste não é de comer, é para o braço do violão, como se fosse uma pestana.

Aí, parado fiquei eu. Certo, respondi, mas que tem som de comida e boa tem. Se não é, deveria ser. E outra, pestana pra mim é fio de cabelo da pálpebra ou, quando muito, é puxar uma palha, de preferência em rede depois do almoço, numa deliciosa preguiça mineira.

É cada uma!

Outras estranhices que mostrei vou contar significado não, deixo busca no dicionário, mas só vale o de papel, aquele livrão grosso e com aroma de muita coisa contatada. Fica de presente para você. Enquanto isso, tome um belo “Cabotino”, acompanhado de deliciosa “viscacha”, não há quem resista.







quarta-feira, agosto 3

Quintais



Tenho mania de lua, sempre tive, desde pequeno. Cresci em quintal grande, cresci em vários quintais. Conto. Apesar dos muros que separavam as casas, eles, os muros, não delimitavam espaço para nós. Sempre havia árvore a ser escalada e buracos nos tijolos que nos servir de apoio. Era pulo só e já estávamos na continuação de nossos quintais. Alguns eram hostis. Contei do galo que dava carreira em quem se aventurasse por seu terreiro. Outros, donos, ruins em tristeza e péssimo humor, nos rogavam pragas e atiravam caquis maduros quando, como bando de micos, cruzávamos “seu território”.

Nem podiam imaginar que suas moitas de bananeiras, há muito, se tornaram nossos banheiros. Para que correr apertado para casa se ali em “nosso” pedaço existiam tantos banheiros desocupados? É fato que, de quando em vez, um de nós saía correndo com as calças arriadas escorraçado por alguma galinha no choco. Ninhos espalhados pelas moitas eram mais temidas armadilhas dos cães bravos.

Aliás dos cães. Alguns infelizes que detestavam crianças, bem dizer não éramos exatamente santos, pelo contrário nos faziam miúdos de verdade, com toda coragem e molecagem que nossas pernas e imaginação permitissem.

Logo que corria notícias de cachorro novo em nossos quintais começava estratégia de conquista.
Deitado sobre o muro deixava o bicho latir grosso sem parar. O dono chegava na varanda, via cena e sorria satisfeito a pensar : um menino que aqui não entra mais, frutas e galinhas seguras. Qual!
O bicho latia até ficar rouco e, cansado de em pé ficar, soltava o quarto traseiro, sentava. Bom sinal. O latido ia ficando fraquinho, murmúrio, até se trasnformar em bocejo canino. Largava o corpo com as patas da frente esticadas, parecendo a desnarizada esfinge egípcia e deitava em leve rosnar. Era o sinal para o segundo estágio da conquista.

Todos nós carregávamos bolinhas miúdas de carne, do tamanho de bolinhas de gude, surrupiadas de geladeiras de casa. Hora em vez rendia coça, pois um tinha levado a mistura do almoço. Chinelo cantava. Sinal respeitado por todos. Aquela marca vermelha de sandália havaiana pregada nas costas era um troféu, cicatriz de uma guerra de paz. E, acredite, ninguém virou bandido por conta disso.

As bolinhas de carne iam sendo atiradas junto ao cachorro que, depois de bom cheirar, catava uma a uma com o canto da boca, comia ainda deitado, focinho rente ao chão. Umas jogadas mais um pouquinho em nossa direção. Com preguiça, levantava. Uma espriguiçada de dobrar lombo para frente, outro bocejo e lá vinha o bicho. Assim acontecia durante alguns dias. Logo já fazia parte da turma, acompanhava pulando e aí não tinha jabuticaba que chegasse. O dono do bicho em feliz maldade, achando agora que era maritaca, preparava espingarda de sal.

Tenho mania de lua. Sei suas fases, acompanho seu brilho, seu silêncio. Os bichos me ajudam a lembrar. Morcegos em particular. Se é lua cheia, o movimento é menor, começa tarde. Na nova é aquele fantástico aranzé.

Um piseiro no céu. Triste aquele que não olha o céu com paixão verdadeira. O resto é falsa poesia.









Em Jornal Correio de 31 de julho de 2016

segunda-feira, julho 25

Sinal fechado


PS: As letrinhas publicadas em vermelho... bom as letrinhas vermelhas...



"– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?"


– Oi moça, sumiu!
− Nossa quanto tempo, que bom te encontrar. Fazendo compras?
− Não, só olhando o movimento, cores de vitrinas. Observando gente, pensando na morte da bezerra, como sempre.
"– Tudo bem! Eu vou indo, correndo para pegar meu lugar no futuro… E você?"

− Sumida daquele tanto, onde anda escondida?
− Nada, quase não saio. Ando por aí, no Facebook e tais.
− Que legal, vou solicitar amizade. Você aceita, pode ser?

"– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!"

− Claro, vamos ter mil encontros que nem te conto. Tanta coisa para conversar e por em dia.
− O que anda fazendo?
− Nada demais, o de sempre. Muita prosa boa no Twitter. Sabe como é. E você?
− Fazendo minhas corridinhas, vigiando passarinho, pôr do sol, nascer de lua. Estrelas e tons de verde…

"– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!"

− Olha me dê seu telefone.
− Pô, que legal, vai me ligar? Poderíamos aproveitar o frio e saírmos para tomar um caldo.
− Não vai dar, agradeço, fica para uma próxima vez. Agora que tenho seu telefone, vou te adicionar no Whatsapp. Vai ser bom retomarmos nossos contatos.
− É mesmo. E se a gente marcasse um chopinho?
− Difícil, pois tenho encontros com amigos que estão longe e até com alguns aqui da cidade pelo Skype quase toda noite, mas quem sabe não é?
− Nem um cineminha um dia?
− Você tem Netflix? Estou acompanhando cada série fantástica. Já assistiu Game of Thrones?
− Pensei na telona.
− Ah não, dá muito trabalho! Além do mais tem que sair de casa.
− Podíamos marcar um vinho então e ouvir boa música, que tal? Tenho uma coleção…
− Aí é legal. Tenho cada playlist no Spotify e do Youtube que você vai horrizar.
−… de vinil…

“- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!”

− Bom, tenho que ir. Foi maravilhoso te ver e nos veremos muito mais agora que temos nossos contatos. Vou ver umas coisas ali na frente.
− Nossa, será que nessa galeria tem wifi?
− Claro que tem.
− Sabe a senha?
−Sei… haja saco.
− Tudo junto?
− Acho que sim, sempre é.

"– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…
– Adeus! – Adeus!
– Adeus!”

Muito obrigado Paulinho da Viola, na voz de Chico, por seu “Sinal Fechado”. Saiba que, por mal dos pecados, os sinais andam fechando e abrindo ligeiros demais. As gentes se fechando em bites, gigas e games. Prosa anda rara e a calma pressa interiorana substituída por guerra, pressa, sobrevivência. “Viver anda cada vez mais perigoso” (Rosa/ Riobaldo)

"Gentes tão escondidas. Reclusas, se negam ao perdão. Descrença que entristece. Sigo viagem.
Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é saber definir o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

"– Pra semana…
– O sinal…
– Eu procuro você…
– Vai abrir, vai abrir…
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…"







Correio de Uberlândia 25 de julho de 2016 - quase fim de férias

quinta-feira, julho 21

Bezerro





Foto Trilha dos Tucanos

Desespero de fazendeiro, só criava gado à larga, solto no pasto, no mato. Era bicho prá todo lado, embrenhado em grotões onde cavalo nenhum conseguia chegar. Reconto essa história sem tirar nem por. Foi um acontecido longe, pelas bandas da Serra do Cipó, coladinho em Conceição do Mato Dentro, que um dia foi da Comarca de Sabará, depois de Serro Frio e chegou a chamar Conceição do Serro.

Quem disse que ele conseguia peão que ficasse? Na primeira hora do dia, já se via desespero, num aqui não fico não homi. Como juntar gado brabo desse jeito, de investir em arreio de montaria? Assim foi. Tinha que vacinar o rebanho. Fiscalização avisou. Suava desespero. Fazer o quê da vida?

Estava assim na varanda, sentado em banco comprido de madeira jacarandá, lustroso de tanta bunda alisar, quando chega a pé homenzinho miúdo, franzino que só. Calça na canela e sandália de couro cru. Camisa amassada indicava viagem longe. De bagagem um quase nada. Parou assim parado, olhando chão. Observado foi sendo.

Passado o tempo de timidez, murmurou:
— Há de ser aqui que andam de precisão de vaqueiro? Me contaram lá em Conceição, me ponho na sua vontade, que trabalhar careço.

Olhou aquela figura pequenina, dos braços fraquinhos, pensando se ria ou chorava. Dá conta nunca da empreitada, sofismou. Mas tinha solução que outra fosse?

Contou o serviço de juntar o gado para o curral. Tinha que ser todos. Rês nenhuma poderia ficar para trás perdida.
— Vou lhe arrumar cavalo bom e se quiser começar amanhã está contratado, pois já é hora de almoço e seu dia não ia render.

— Agradeço patrão, mas almoço fica prá quando voltar. Quero cavalo não. Vou a pé mesmo. É só apontar direção da bicharada.

— Sem cavalo ou mula? Endoidou? Contaram a braveza dos bichos?

— Contaram patrão. Ligo não. Sigo assim mesmo e se não chegar todos nem paga aceito.
Sendo assim, apontou o caminho.

Fazendeiro balançou a cabeça. Deve ser doido varrido, mas quer, deixa tentar. Assim, faço ao menos caridade em dar de comer quando voltar triste.

Eu não vi, pois é história repicada, mas contam que esse moço miúdo ficou emprenhado a correr dia todinho. Correu mato, cerrado, serra e grotão, açodando um por um dos bichos. De mamando a caducando trouxe todos.

Fazendeiro ainda triste na varanda levantou os olhos, esfregou para ver e não pensar desverdade das vistas. Descendo a serra vinha manada rumo ao curral. Correu sentar no varão da porteira a contar, apontador.

Todos estavam ali, faltava nada.
— Moço de Deus, mas conseguiu feito nunca produzido, e a pé! Conta, deu muito trabalho?

— Olha patrão, trabalho, trabalho, os grandes e os sobre ano deram não. Mas aquele bezerrinho amarelo me deu suador, pois o bichinho é ligeiro e esperto, conhece caminho.

Bezerro amarelo? Uai seu moço, tem vaca aí não! Só macho. Mostra o tal. Subiu na cerca e apontou o canto mais longe: Olha lá ele!

Olhou seguindo o dedo e arregalou os olhos em espanto. O bezerro que o cabra tinha tangido, no seu correr sem parar, era um veadinho-campeiro, veio no afoito, no engano. Vai correr assim lá em Minas, seo moço!









Jornal Correio em 17 de janeiro de 2016

terça-feira, julho 12

Sonho realizado

Mais um sonho profissional realizado. Orgulho de fazer parte de  equipe tão fantástica.
Caminhos escolhidos, abraçados com paixão.


Clica na imagem que amplia

Para baixar o Manual em PDF seguem os links 

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/publicacoes-svs  (página “Publicações da SVS”, na aba “Zoonoses”)

http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/julho/08/manual-zoonoses-normas-2v-7julho16-site.pdf  (link direto)

segunda-feira, julho 11

Moletom





Frio que não quer ir embora força a gente a fazer cada uma! Roupa de frio de ruar (ato de ir para rua, bater pernas, cair no mundo). Frase muitas e muitas vezes gritada por mães ou avós aflitas: Já vai ruar outra vez menino!! Já é rara. Agasalho de ficar em casa, de dormir, então, nem se fala. Tomar banho e vestir o quê para, confortavelmente, se deixar ficar em sofá a ler, ouvindo boa música ou mesmo vendo televisão? Não tinha. Criei coragem e fui a lojas garimpar algum do meu agrado.A falta de costume me fez espantar com o tamanho das lojas visitadas. Imensas, cheias. De roupa, gente pouca.

Funcionários sem identificação seguindo tendência, se misturam a potenciais fregueses, ao que ficamos com cara de boi sonso, olhando para ver se dão sinal de vida de vendas ou se são outros clientes. Achei que cliente era só de consultório, não é não. De freguês a cliente em um dia de compras. O jeito foi me virar sozinho e procurar o departamento de moletons. Tinha que existir um, ora.

Depois de muito andar, já sentia o frio diminuir. Achei o tal lugar onde os moletons se escondiam, um sobre o outro, parecendo dizer em triste murmúrio: — Me leva não! Olhei um, olhei outro e revirei a pilha tentando não desorganizar. Cáspita! Qual seria meu tamanho? Acostumado com números 38, 40 e tais, aqui eram letras, como nas camisetas.

O jeito era experimentar. Agarrei um de cada cor e, outra luta, foi achar um provador, que agora se chama “trocador”. Trocador pra mim é de ônibus. Segui busca. Até aqui não havia sido abordado por ninguém da loja. Nem alma penada chegou, com sorriso ou cara feia, para perguntar que raios estava fazendo ali. Achei! Não só o provador, como também um alguém que, rapidamente, contou as peças que carregava e me deu uma ficha, além de seco olhar.

Cabine de experimentar roupa consegue ser menor do que banheiro de ônibus ou avião. Alguns ganchos, um espelho, e banquinho, cortina que mal fecha. Ginástica de contorcionista para desamarrar o tênis, equilibrar em uma perna só, cabeça encostada na parede de compensado, três pulinhos para um lado e quase me vi no corredor aos gritos de “Abrem-se as cortinas”! Celular cai chapado, carteira some e chaves do carro se escondem como coelho ligeiro em meio a tanto pano. Comecei a suar, o calor só aumentando.

As medidas. Meu manequim é um quase nada. O tamanho P fica curto na canela. O comprimento M faz a barra arrastar no chão. Jesus Cristinho, o G fica uma marmota! Mais acrobacia para vestir a calça e calçar tênis. Um serviu, mas a cor não era a que eu queria.

Recolho tudo, saio de cadarço desamarrado, entrego para a moça roupas e ficha. Retorno ao canto dos moletons e pego mais um tanto de modelo diferente. O trocador fica longe dos moletons, fiz umas tantas viagens. Suor já brotando nas têmporas e testa. A moça me estende outra ficha e as chaves do carro, que ficaram no monte. Primeiro sinal de humanidade. Acho que ela estava ficando com dó de mim. O calor que sentia lembrava o de um bom treino de academia. Quase não conseguia tocar o tecido quente do experimentado.

Exausto, me dei por vencido, pois nada me servia. Com um calor desses, que moletom que nada! Comprei, sem experimentar, um calção de corrida. Saí feliz da vida.






Em Jornal Correio 10 de julho de 2016

segunda-feira, julho 4

Cometa




Foto  Comet  Lovejoy :  Sky and telescope

Valdelândio, por todos nomeado Vau, era sonhador incorrigível. Vau, por facilidade no chamar, já que seu nome de batismo era difícil de pronunciar, principalmente depois de noitada no boteco da vila. Vau ficou. Não era de raso de córrego, de água nas canelas, nem sujeito pouco profundo. Nas ideias e nas gentilezas era cabra de muito conteúdo, muita história, vivência. Quando pegava a contar, até mosquito se aquietava a ouvir, desprotegido, das taruíras que perdiam fome e instinto, e paravam a balançar cabeça escutando. Pois me conte, se lagartixa é dita surda? Ali elas conseguiam ouvir e bem escutado.
Dava conselho para criança e gente erada, sabia.

Tanto sabia e não guardava nada, generoso que só. Vau um sonhador sem limites. Gostava de uma caninha de engenho, pelo sabor conhecia até variedade da cana. Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta e sabe-se lá qual mais. Porém gostava mesmo era de aguardente produzida da cana caiana, planta nobre das antigas. Costumava contar: Cana de setembro gosto não, pinga aguada sem sabor, a de novembro começa a mostrar espírito, alma, mas ainda não convence. Já as plantas de dezembro, chegam carregadas de sumo doce, prontas para festança de fim de ano. Estas sim dão bebida boa. Pois olhe e apure, nem o garapão dessa tem azedume malcheiroso daquele tanto.

Mesmo com discurso conhecedor, não provia desfeita a ninguém e se, em visita, toca-se pinga de indústria, não se fazia rogado. Bebia com gosto e ainda elogiava. Homem bom esse Vau. Inimigo não tinha, mas amigos de fato. Poucos, mas bons. Conhecidos? de manada.

Trabalhava o suficiente para tocar vida, não tinha de posse um passarinho para dar água, mas os tinha aos bandos em quintal de sua pequena tapera. Tanta árvore de fruta e sombra tinha plantado que havia pelo chão só folha a enriquecer e alimentar minhocas e caramujos. Grama ali nascia não.

Vau tinha cisma única de como seria o outro lado, como seria a volta, o morrer. Não entendia a graça nisso. Essa coisa de céu e inferno ele nem de longe acreditava, pois até o padre de cabeça lhe tinha tirado isso. Era que nem bicho-papão para moleque miúdo. Era para assustar, aprumar comportamento. O mistério era maior.

Ideia o seguia. Era só deitar a olhar estrelas e vinha a preocupação. Teria lá uma pinguinha boa para abrir apetite? Tinha que ter, ah isso tinha! Os bons e justos iam misturar com os desalmados trapaceiros, fazedores de coisa ruim? Tinha que ter um lugar apartado, senão ia ser um aranzé. O que não se desentendeu aqui ia sobrar só para a eternidade em algum canto do universo? Então era o inferno! Padre balançava cabeça num desisto.

Foi nada não. Dia desse, passando olhos em revista, leu manchete: “Cientistas descobrem que o cometa libera álcool etílico e açúcar”. Deu de interessar. Ficou sabendo que tinham descoberto um cometa que atendia por Lovejoy e que ele estava “soltando uma quantidade de álcool relativa a de 500 garrafas de vinho por segundo durante sua atividade de pico”.

Relaxou. Pronto, agora sabia até quando iria dessa para outra. Seria na passagem do alegre cometa etílico. Levantou sorrindo felicidade, bateu o chapéu na perna, olhou com gosto noite estrelada. Tomou caminho do boteco cantarolando: “Pegar carona nessa cauda de cometa…”







segunda-feira, junho 27

Clima de sonhos



“Você já foi a Bahia? Não? Então, vá”. Pois então, não é que  Caymmi, propositalmente ou não, vai se lá saber, vendeu e muito bem os encantos das terras que serviram como porta de entrada para os lusitanos nos descobrirem, ora pois.

Contam que Pedro, o Cabral, procurando as Índias se perdeu na confusão de placas de sinalização espalhadas mar adentro, errou o caminho e veio parar em nossas costas. Talvez o vento tenha virado a placa indicativa “Índia a cinco mil quilômetros, reduza a velocidade, cuidado com o quebra-mar, respeite a sinalização e boas descobertas pá”.

Se foi assim sei não, mas entre tempestades, calmarias e muito tédio, aqui chegaram. Missas e tais, depois só gandaia. Belas índias, a rodo, foram penas para todo lado. Assim foi e assim permaneceu, a fama pelo menos. Até os dias de hoje, a Bahia é uma festa, um fim de semana que começa na passagem de ano e termina no Natal. Imagine se os portugueses tivessem chegado pelo sul e no inverno? Das duas uma, ou teriam dado meia volta, tipo: — Ô, Vaz escreva nada não, estamos a voltar, isso cá não tem nada de Índia, vamos pegar o primeiro retorno, erramos em algum trevo.

Mas não é sobre isso que quero falar. A pródiga e maravilhosa Bahia fica para outro dia, tenho muito de lá a contar.

Há tempos não sinto tanto frio aqui em Uberlândia. Fico encarapinhado, que nem passarinho. Falta gosto até de conversar. Quero mesmo é cama. Como anda a escurecer muito cedo, chego de minha corrida diária e tomo um belo banho, inicialmente, frio. Ô vontade de gritar um belo e alto palavrão quando a água bate nas costas. Passo a morno e encerro em “departure” galope.

Contudo, mudei muito o pensamento sobre frio em junho. Quanto à chuva, que tanto me apaixona em época qualquer, descobri que é chuva verde criada longe, em região de mistérios e belezas escondidas, a espera de curioso encontrar lugar de Matinta Perera com seu assobio. Da Boiúna, a cobra grande, do Piripirioca, aquele cuja alma passeia pelo céu, entre as estrelas quando canta. Terra do Uirapuru e seu canto belíssimo, a chamar sua paixão destruída. Do boto e suas seduções. Pois conto, a Amazônia chove em mim. Mesmo trazendo frio, ligo não. Sinto cheiro da mata quando chove. Forte, doce superlativo, como tudo por lá eu vi. Conheci o paraíso.

Vem a pergunta: você já foi a Amazônia? Não? Então, saiba que ela vem até você dezenas de vezes ao ano. Não acredita, pois saiba, outra vez afirmo, que a Amazônia chove em mim e em você constantemente. Os climatologistas sempre nos dão esta maravilhosa notícia.

“São os ventos úmidos vindos da Amazônia, que trazem chuva para o Sudeste do País, em contato com as frentes frias secas que vêm do Sul. A tendência desse encontro é ocasionar queda na temperatura”. Palavras do xará William César Borges, do Instituto de Climatologia da UFU, outro dia.

As frentes frias vêm do Sul. Sim, misturo a mística floresta com belos tangos da Argentina, que tentam gelar minhas noites, mas são sempre bem aquecidas por belos vinhos de Mendonza.









Jornal Correio em 26 de junho de 2016

segunda-feira, junho 20

Dedo meu



Sou um entusiasta por novas tecnologias, apesar de preferir mato, cachoeiras e bichos a gentes. Mesmo me deixando ficar horas deitado olhando estrelas, a espera de que alguém ou alguma coisa venha me buscar lá dos confins do universo, como no niilista e gnóstico filme “Matadouro 5”, que acredito quase ninguém viu, “estou solto no tempo”. As possibilidades que as modernidades nos mostram todos os dias, também me encantam. Outro dia, brincando com um iPhone, demos boas gargalhadas ao mantermos um diálogo sério com esse aparelho. No caso ela, pois a voz era feminina. Ponto para a língua inglesa, já que, neste caso, poderíamos usar um simples “it”. Nada de “he” ou “she”.

Disca para fulando, como está o tempo no Nepal, qual a cor de Rocinante, montaria do cavaleiro da triste figura? Perguntas feitas até chegarmos a outras do tipo “pessoais”: você é feia? Você é burra? Ela, a voz, apela, fica uma onça e ainda te dá respostas malcriadas. É cômico.

Respostas a perguntas mais “complexas” são hilárias. Faça o teste e passe bons momentos.
Agora, estranho mesmo são os tiques que desenvolvemos com o uso constante destas máquinas. Permitam-me sussurrar para que meu celular não escute. Chamá-lo de máquina, aparelho, autômato ou coisa que o valha, para ele pode ser ofensa.

Acho que todos, frutos do mundo do copiar/colar já copiaram algum texto ou mensagem da tela de um celular. Aquele ato de segurar o dedo, geralmente, o indicador sobre uma palavra, faz aparecer aquele sinalzinho que escorregamos para marcar em azul o que queremos reproduzir. Até, aí, normal, estranho é o que vem depois. Quando clicamos em “copiar”, vem a sensação de que o texto está grudado em nosso dedo. E o medo de encostar em qualquer coisa e apagar ou transcrever o copiado na pele, parede, panela ou copo?

A impressão que dá é que, se coçar a orelha, prega lá o texto. E pode ter certeza, uma coceira vai aparecer em algum ponto para seu pânico. E lá se vai, com dedo meio levantado para não gastar o copiado. No meu caso, é pior, pois só uso um dedo para escrever no celular. Nunca consegui destreza de gente que escreve com velocidade taquigráfica.

Meu indicador já está criando calo. Logo terei que mudar de dedo ou mão, pois ele já começa a dar sinais de exaustão. Eventualmente crônicas inteiras são assim digitadas. Isto acontece muito quando meu caderninho fica longe ou em situações especiais, como em avião e sala de espera por exemplo. Assim, a visão está cada vez pior e o dedo nem se fala.

Sou catador de milho naquele miniteclado que, para piorar, tem a mania de mudar as palavras por conta e risco. Um desaforo sem tamanho. Imagine se fosse real. Fazer cola seria manha. Todos poderiam tirar o relógio, passar por revista geral para ver se tem papelzinho ou escrito na perna. Mas e o dedo?
É, mas os caras são espertos. Antes de entrar em sala de aula, diriam:
— Bota o dedo aqui na folha branca! Pronto, mais uma técnica de cola frustrada.

Agora, posso entender bem o significado do termo “Não aponta esse dedo para mim!”. Viva a tecnologia. Pode não fazer bem, mas que a gente se diverte, isto é fato.







Em Jornal Correio 19 de junho de 2016

quarta-feira, junho 8

Constatação

"A dificuldade humana de gostar de gatos está diretamente ligada
 a incapacidade de amar sem dominar."
 
 
 

Desabafo

(…) Amanhã não gosta de ver ninguém bem. Hoje é que é o dia do presente (…). Impossível fugir a essa dura realidade. Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios (…)

Dia da criação – Vinícius de Moraes


Boas coisas, boas gentes, amores, parecem que duram pouco ou não foram feitos para mim, não é meu destino. Sina. Tive longa paixão, mas só eu acreditava nela. Diziam impossível paixão longeva. Pois tinha. Sou um desastre no relacionar, gênio ruim, estopim curto, um humor que sobe e desce. Não há quem aguente. Mudei muito. As perdas nos mudam. Pena que quem se feriu não acredita. Dou toda razão. Fui custoso. Fui, no sozinho pensar, refazendo meu pesar. Meu jeito de carinhar e gostar.

Tenho muito que provar, mas também não tenho pressa. De meu gato muito falei. Jurei falar mais não, nem que fosse por prazo. Mas hoje carece, me digam se não. Como um bicho pode ensinar. Confesso que conversei muito com ele. Bicho confidente e, gato, desconfiado que só, respondia com olhares/miados. Cumplicidade consolidada. Dois viventes livres e aventureiros.

Veio o desgosto. Morar em condomínio, prédio, casa que seja, pois ter vizinho é um exercício de paciência e tolerância. Criaram caso com meu gato. Queixa me chegou. Sou mineiro das alterosas e, como tal, sistemático. Pago minhas contas e nunca atrasei dia sequer. Não tenho dívidas, tenho compromissos e estes honro no dia e hora. Devo ninguém. Quieto mas fácil de fazer amizade sincera. Gosto de mentira nem de falsidade não. Sempre me mantive arredio e na minha. Cumprimento com sorriso e poucos lá com um bom dia/tarde/noite de voz. Ouço música baixa para não incomodar. Tento permanecer invisível.

Pois não é que desalmado, mal-amado, infeliz, se queixou do simples existir de meu gato!? Gato do bem, adorado pela criançada e vários adultos. Socializado ao extremo. Conto minha rotina nesse minúsculo condomínio de casas. Convivo com cachorro latindo dia todo, barulho de música alta em festa. Nunca reclamei, nem vou. Pois todos têm um dia ou outro de ligar o foda-se.

Ser feliz não é doença. Pois assim acharam. Meu gato, tranquilo e do seu jeito conquistou muitos. As crianças principalmente e adultos do bem, felizes. Tem gente que não merece o mundo, devia pedir desculpas pelo espaço que ocupa. Para a coisa não ficar feia, pois repito, estopim é curto, e por mais que exercite tolerância fico preocupado que hora me falte, principalmente frente a tanta mesquinhez de vida, levei meu gato para uma pessoa muito especial. Coração enorme, apaixonada com a vida e com o viver. Casa de verdade, nada de meias paredes sufocantes/confessionárias. Quintal belo, florido e arborizado. A morada mais linda do bairro. Sempre disse isto. Gato está lá muito bem, obrigado. Cercado de gente feliz, almas claras, de bem com a vida.

Fico pouco por essas bandas, queria viver entre pessoas resolvidas. Ao coitado que queixou, fique em paz, mesmo que esta jamais o alcance. O que não duvido. A vida é, mesmo que não acreditemos em alguns momentos, justa. Não o quero mal, o quero longe. Tento e sou paciente. Mas execraram meu gato, uma companhia e amizade a alegrar solidão, e eu, quero mais é ir embora. Se souber de cantinho, meia água com plantas e gente do bem, me avise via e-mail.


"And in the end the love you take is equal to the love you make"
The Beatles







Jornal Correio - Opinião em 08 de junho de 2016



".

segunda-feira, junho 6

Recuerdos: Beijo





Sentado no canto mais escuro do bar, coçava a barba por fazer. Daquele ponto podia observar todo o ambiente. O entre e sai das gentes. O apressado engolindo cafezinho, que pelo cheiro que emanava da cafeteira prateada mergulhada em cuba d’água sempre aquecida devia ser esquentado, feito há dias talvez.

Outro, a comer lambuzado pão com molho de almôndegas vindas de travessa onde ficavam a boiar em vermelho caldo na vitrina de salgados, como estranhos seres alienígenas que ainda não foram pescados. Ali também havia ovos cozidos de cascas azuis e vermelhas, pastéis ressecados, e claro, moscas, muitas moscas.

Do seu canto observava também uma parte da movimentada rua. A porta do bar, uma moldura. Enorme boca parecia tentar engolir carros e pessoas que ao seu alcance passavam. Um quadro em movimento, mutável, tristemente dinâmico, vazio. Cinza.

Fazia um calor insuportável. Abaixou os olhos para o seu copo de cerveja, estava quente. Com as costas da mão conferiu a temperatura da garrafa, sentiu a umidade do vidro suado, mas pressentiu que o que ainda lá restava também já não estava gelado, nem fresco.

Assim mesmo tornou a encher o copo, espuma branca e abundante tomou quase o copo inteiro, uma pequena cachoeira escorregou alva pela borda e derramou pela mesa de lata, virou amarelo líquido rapidamente. Com a ponta do dedo ensaiou um desenho sem sentido com a cerveja derramada. Um círculo, algumas letras, um rio e suas curvas.

Bateu a mão no bolso da camisa procurando o maço de cigarros. Mania, parara de fumar havia muito tempo. Tamborilou no encosto da cadeira do lado uma música que nem conhecia. Ansiedade.

Buscou com os olhos alguém conhecido.

— Mais uma cerveja, por favor, tem torresmo? - Ia ficar ali um bom tempo.

Procurou  guardanapo de papel rabiscado. Era o bilhete que havia recebido no dia anterior. Entregue por um menino vendedor de flores, aquelas rosas mumificadas embrulhadas em papel celofane.

— Moço, mandaram entregar. Baixou os olhos para a encomenda um segundo e quando outra vez os ergueu o pequeno mensageiro havia sumido, mágica, não tinha para onde ir tão rápido, estranho.

Além da caligrafia bonita, do perfume que não mais se podia sentir, o que mais encantava era o beijo de batom. Vermelho vivo. Um convite ao desejo. Prometia encontro naquela mesa, na proteção da tarde quando poucos ao bar se aventuravam. Não conhecia a dona daquela caprichosa mão e de tão perfeita boca. Sonhava.

As horas avançavam, o entra e sai aumentava, a moldura da porta adquiria tons escuros, faróis agora acesos cruzavam seu campo de visão. Ninguém. Com paciência sofrida, colou o bilhete no casco da última cerveja, o vermelho do batom escorreu papel abaixo em contato com água condensada. Observou a cena sem emoção especial. Quem sabe amanhã? A solidão ainda permite sonhos.







Jornal Correio 06 de Junho de 2016



segunda-feira, maio 30

Vida mágica



Além de meio loucos, ou loucos e meio, nós humanos temos por jeito achar sempre que somos figuras perfeitas, criadas à imagem e semelhança do Senhor (Gênesis 1:27), mesmo sabendo que ninguém tem a menor ideia de como Ele é de fato. Claro, tem um monte de figuras que garantem que o viram em delírios e passam a se sentir abençoados e especiais. Assim, logo criam uma igreja.

Se você já leu o Livro Sagrado, seja o velho ou o novo testamento, vai ver que Ele se deixa mostrar de várias formas, apresentando-se ora como pomba, ora como anjo ou uma sarça (uma espécie de Acácia) ardente (Êxodo 3:1-5).

Sou da paz e não estou aqui para discutir fé e religião. Observador apenas. Se não abusaram das metáforas, o mundo hoje deveria ser povoado por florestas de acácias, ardendo em chamas sem queimar, por revoadas de pombas que não teriam onde pousar, pois nas sarças o fogo não deixaria. Se povoado por anjos fosse, seria a chatice de sempre: nuvenzinhas, liras, carinhas barrocas de piedade. Nem valeria a pena.

Falar da existência ou não do Criador é chover no molhado. Deixa para quem gosta e se diz entendido. Fico a pensar mesmo é nos “poderes mágicos” que nos conferimos. Cada um de nós, em algum momento, se sentiu dono do destino. Pense bem. Já aconteceu com você de desejar que alguém se desse muito mal, que um avião caísse na cabeça de fulano ou algo parecido e no outro dia essa pessoa bate o carro, vai para o hospital ou enfarta? Se falar que não, tu é santo. Pronto, se você é um grande mau caráter vem satisfação pelo ocorrido. Não sendo, bate uma sensação de culpa, como se seu pensamento tivesse sido a causa daquela tragédia.

E o tal do “se eu não fizer isso vai acontecer aquilo”, geralmente, com alguém que gostamos. Já se pegou quase a dormir tendo um pressentimento e, mesmo pingando de sono, procura madeira para bater três vezes, pois caso contrário, a tragédia se concretiza?

Somos assim, poderosos criativos em culpa constante. Vivemos um inferno dantesco por conta de superstições e bobagens criadas por nós mesmos. Só levanto da cama se ver passarinho passar voando no quadro de céu emoldurado pela minha janela. Se assim não fizer, meio dia será um caos. Belas prisões limitantes criamos para nós mesmos.

Mas sem elas, vamos pensar em que mesmo? Na inflação galopante? Nas contas que não paguei? Na violência das ruas? Na miséria e dor das guerras? No desamor? Não, isso tudo é muito real e está ali nos esperando. É real demais para nosso gosto.

Supersticioso? Eu? Nunca! Mas me deem licença. Deixem eu correr a acender vela preta e branca, dar seis voltas de costas na mesa da sala, subir e descer a escada cantando Salve Rainha, pois se assim não o fizer meu Galo perde o jogo que está para começar.

Fecho com João, o Guimarães Rosa: “Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possí­vel, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar, é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim, dá certo.”
No mais, Gerais.






Jornal Correio 29 de maio de 2016

segunda-feira, maio 23

Bem-te-vi



Sempre fui do muito viajar a trabalho. O pouquinho que aprendi em algumas décadas de lida com bichos que poucos têm atração me proporcionou oportunidades únicas. Tive a grata satisfação de ver resultado desse místico fascínio transformado em publicação normatizadora para todo Brasil, trabalho a várias mãos, só gente com amor a causa que, no nosso caso, é a saúde coletiva. Daí a girar mundo levando nossa experiência foi caminho natural. Realização plena isso posso garantir.

O muito que vi e aprendi viagens a fora nem conto, de tanta coisa. Pessoas, lugares, cheiros, vistas, sotaques e paladares. São muitos Brasis dentro desse aqui. Os portugueses, nossos colonizadores, além dos saques, da espoliação incalculável de nossas riquezas naturais, da matança de índios os genuinamente brasileiros, de subjugar nosso primitivo povo e ainda importar lutuosa escravidão. Além de terem implantado em terras de Santa Cruz cultura de rapina e corrupção, conseguiram feito único se levarmos em conta o tamanho de nossa terra: a disseminação da língua portuguesa, nosso pátrio idioma.

De norte a sul, do Atlântico às fronteiras secas mais distantes, português se fala. Um feito para um quintal monárquico onde o principal objetivo era tirar, tirar e depois, mais um pouco, tirar. Diferente do gigante do norte que foi colonizado por gente que para lá foi por vontade própria e para fincar raízes, para cá foram enviados, principalmente, paria excomungados, gente do mal. Só bem depois, quando a nossa imperial matriz ia perdendo o controle da espoliação, é que resolveu mandar jesuítas, afinal, o povo daqui não tinha Deus no coração. Catequizar e levar algum, assim surge do nada as cuecas da época, os santos do pau oco, imagens lindas por fora e recheadas de ouros e pedras preciosas por dentro. Para o enriquecimento ilícito da igreja, todos os meios eram válidos. Todos queriam uma pontinha.

Mas no que diz respeito ao idioma, sucesso total. Claro, os sotaques, os trejeitos as expressões regionais existem e não carece muita distância não. Às vezes, de distância curta, até de cidade quase dentro de outra. O cantar do nordeste, o chiado carioca, o portunhol da fronteira. O uso de palavras nativas no Norte. Nem estas pequenas diferenças impedem qualquer um de se comunicar, de fazer entender onde quer que se vá.

Mas, mesmo assim, depois de certo tempo fora de casa, bate um banzo, uma saudade de alguma coisa que não dei o que é. Posso conversar sobre isso em qualquer rincão do Brasil, mas as saborosas diferenças não curam saudades.

Certa feita, em algum recanto longe, me lembro direitinho. Fim de tarde, banho tomado esperando os companheiros para prosa antes da janta. A semana quase no final e saudade de um bom “r” puxado. Fechei os olhos em cisma por segundos quando quase por sobre minha cabeça bem-te-vi cantou peito aberto. Abri olhos em sorriso. Saudade sumiu por completo. Senti cheiro de casa. Descobri, finalmente, que, mesmo estando em qualquer cantinho do Brasil, estou em casa sim. Harmonia voltou plena e calma.
Descobri ali, naquele instante, que universal mesmo é o bem-te-vi ou pitanga guassu em tupi-guarani. Ele, sim, canta o canto da integração. Vejo-me presente e parte de um País magnífico que tem a sorte de ser abençoadamente unido por canto de passarinho.








Jornal  Correio em 22 de Maio 2016



segunda-feira, maio 16

Última do Gato




Pronto, até parece que não tenho mais assunto. Prometo ser breve e não tocar nesse tema por muito tempo. Bom, se acontecer algum fato novo, inusitado, serei forçado a dividi-lo com você, pois guardar palavras é deixá-las partirem sem rastro ou lembrança e isto não posso fazer. Assunto? O gato. O cara está literalmente enchendo meus cadernos de notas com as confusões em que se mete. Como ficar preso entre as folhas das janelas.

Já tentou fazer um gato filhote andar de fasto? Acostumou-se a entrar e sair por janelas. Outro dia, para me acompanhar, correu com tudo e aos saltos deu com a testa em vidro fechado. Inexplicável o espanto. Hoje, antes de tentar salto triplo, passa a pata para saber se tem obstáculo. Só vendo.

Fui às compras. Lista pequena, consumo pouco, aprendi a duras penas evitar desperdício. Acostumado estava a comprar para muitos. Comprar para um não é fácil. Confesso que perdi muita coisa que, infelizmente, foi para o lixo, perdido.

Para facilitar minha vida, trato Gato com ração. Não gasto com latinhas e saches de dose pouca. Pensa o quê? A indústria de pet movimenta algo perto dos R$ 14 bilhões ao ano. Isto num País quebrado como o nosso e onde culturalmente as pessoas acostumam mesmo é tratar bicho com resto de comida.

Tem de tudo. Brinquedinho besta e pedagógico (?), cama produzida, joias, roupas, coleiras, cobertores. Longe de mim tais badulaques. No item alimentação é uma loucura. Há osso para cães, ração para bicho filhote, jovem, erado, diabético, com alergia a glúten ou intolerância a lactose, ração em grão, farinha, com formato de pelotinha ou pelotão, ossinho, coração. Complexos vitamínicos e minerais. Se brincar tem mais coisa para bicho bicho do que para bicho gente.

Marinheiro de primeira viagem pelo mundo gastronômico dos felinos, lá vou eu a ler rótulos. Composição, modo de uso e sabores. Ah, os sabores! Tem com sabor frango, carne bovina, peixe, legumes com salsicha. Natureba deve pirar, pois não achei uma sequer que não tivesse alguma carne. Fiquei a pensar.

A maioria das pessoas que se dizem naturalistas, ecologicamente corretas, protetoras de bichinhos, tem algum bicho em casa, será que eles olham isso na hora de comprar ração? Ou é pecado, crime hediondo, passaporte para o inferno, ecologicamente incorreto, apenas humanos matarem bichinhos para comer? Fazer ração pode? Claro, nada de generalizar, porque não sou assim, mas conheço dos dois tipos. Daqueles que racionalmente vivem e deixam viver e daqueles que fazem abaixo-assinando na web para proibir índio de usar pena de arara, resumo: os chatos.

Sabe, depois de muito pensar e ver Seo Gato atacar prato de ração, independente do sabor, desde que tenha gosto de carne, acho que encontrei a solução para todos agradar. Por que não criam a ração sabor rato? Seria uma forma de controlar este bicho tão asqueroso quanto perigoso para gentes e outros bichos, e agradaria em cheio a espécie miante do planeta. Ou será que há algum grupo, ONG ou seita protetora dos ratos? Os da Índia não contam!


Jornal Correio de Uberlândia 15 de maio 2016








segunda-feira, maio 2

Procura-se um gato




Procura se um gato, atende por nome algum. Seu pelo é negro como a mais escura das noites. Noite daquelas sem estrelas ou lua, daquelas em que até os vaga-lumes descansam, os grilos emudecem, as corujas, ora veja, descansam aninhadas com seus amores.

Procura-se um gato que ronrona canções mansas e ensina bem querer.

Gato este que me mostrou o caminho de retorno ao gostar, ao carinho, ao amor verdadeiro. Gato preto este que levou consigo meus lutos. Aberto a paixões, pronto.

Como sina, perco bichano. Outro dia contei dele, de seu do nada aparecer, tomou conta manso. Subia a janela e batia para entrar, miava serenatas quando com fome ou sede. Sabia pedir com o olhar de ver no escuro.

Se perdeu o caminho, que o ache de volta. Talvez uma saída para namorar? Uma farra noturna?
Mas se roubado foi, pois manso era, cativante anjo da noite, cuidem bem dele, sua luz clareia o negrume, contraste com seu pelo.

Que receba afago e carinho. Ele retribuirá com virar de olhos e miados sonoros. Que seja bem tratado. Poucos gatos têm dono, eles de apossam das gentes. Se foi levado e não gostar, toma rumo e me acha se essa for sua vontade.

Minha safra de perdas parece não ter fim.

Que seja assim a última da colheita, pelo menos, por um tempo. Como chão que pede repouso após plantio, minha alma, meu coração pede pausa em perdas. Deixa tudo cicatrizar em preparo para outra safra, pois perdas são inevitáveis, mas não precisam vir todas de uma vez.

Procuro um gato, um gato preto que mesmo recebendo nome de Ângelus, da oração que só depois vim conhecer, não atende chamado, não se dá conta. Anjos não carecem nomes nem sexo. Procura-se um gato que chegou gata, descobri depois, gato era.

E logo ele que me devolveu a crença em amor sem cobrança, todo pautado na confiança.
Recompensa-se bem. Ofereço amizade plena e sincera, ofereço ombro para aflições compartilhar e meu tempo para ouvir.

Acordo cedo. Um vazio esquisito toma conta de uma cabeça repleta de pensamentos acelerados. Falta alguma coisa. O arrumar a cama é obrigatório. Mesmo morando só, não consigo deixá-la desarrumada. Marmita pronta enrolada em alvo pano, fruta para meio da manhã. Hoje é dia de coleta de lixo. Guardo o meu comigo para só entregá-lo à porta nos dias certos. Algazarra matinal da passarada. Chego à janela do quarto, beija-flor vem me ver bem de pertinho, quase pousando em minha mão. Não, não é licença poética nem invenção, veio em assobio de asa e bom dia me deu.

Desço a escada pesado. Falta algo. Paro apoiado no corrimão, olho do alto a sala vazia de movimento, nem vento. Suspiro, dou de ombros.

No abrir a porta, quem vejo. “Meu” gato! Um miado alegre a me receber. Afago com força seu dorso, seu pescoço. Murmuro injúrias carinhosas ao seu ouvido. Ele ronrona alegre. Trançando entre minhas pernas me acompanha até a rua, onde deposito o lixo no lugar de lixo.

Sigo para o trabalho e ele, o gato, fica sobre namoradeira da varanda a me seguir com amarelos olhos.
Estará lá quando voltar? Nunca saberei. Gatos são livres, viva a liberdade.






Em Jornal Correio 1º de Maio 2016 - Dia do trabalho e de folga

segunda-feira, abril 25

Gatos




Gato é um bicho interessante. É que nem pequi, jiló ou dobradinha. Não tem meio termo, pois ou você gosta ou não quer nem vê-lo por perto. Bom, tem sim, já que existem pessoas como eu que conseguem admirar a beleza, a elegância e a independência felina. As variações de pelagens infinitas, as três cores das fêmeas. Se você não sabia, conto. Apenas as fêmeas possuem pelagem tricolor, herança ligada ao sexo em bom genetiquês.

E os olhos? Quanta beleza, profundidade e sensualidade. Não é à toa que mulher bonita é chamada de gata. Pode ser, por motivo outro, ligado ao fogo. Quem não ouviu ou usou a expressão “fogosa que nem gata no cio”?

A relação humanos/gatos é milenar. O bichano já foi adorado como um deus pelos egípcios. Aqui abro espaço para um pouco de cultura inútil, daquelas informações que você jamais vai usar na vida (mas vai que…): “Bastet, a deusa egípcia da fertilidade e do amor materno, era comumente representada por uma mulher com cabeça de gato”. Mas, aí, lá pela bandas da idade média os cristãos resolvem endemonizar o pobre bicho. Muita gente boa foi para a fogueira, taxada de bruxa, pelo simples fato de possuir um gato. Caraca, será que não tinham mais o que fazer não?

Viu só? Quem é que poderia viver sem essa informação? Agora que estamos todos salvos do poço escuro da ignorância, sinto-me mais confiante para continuar a vida. Em minha varanda, tem uma namoradeira secular, daquelas feitas sem prego e as emendas das tábuas preenchidas com cera de abelha. Na minha varanda, sobre a namoradeira, eu tenho um vasinho de cactos, presente de filho.

Pois não é que, de uns dias para cá, em minha varanda, sobre a namoradeira, toda manhã, meu vasinho começou a aparecer tombado? Pedrinhas brancas, que o adornam, espalhadas por todo canto. Seria o vento, pensei sem pensar. Que vento nada. Noite alta chego de manso. Lá, como dono do pedaço, todo esticado, quem encontro? Um lindo gato filhote, desmamado, mas filhote, preto como a mais negra das noites de lua nova e ameaçando chuva, sem estrelas e sem vaga-lumes. Seus olhos esverdeados brilhavam fixos em mim. Levantou-se manso, deu uma bela espreguiçada, desceu flutuando do banco e, em miado choro, veio em minha direção. Passou rente a minhas pernas, pedindo afago. Abaixei e acariciei por longo tempo sedoso pelo. Assim ficamos, no silêncio, em reconhecimento mútuo.

Gatos não são escolhidos, eles escolhem companhias, pois jamais serão de ninguém. Não me atrevo a dizer que serei seu dono, isso nunca. Agora, estamos em fase de namoro. Hoje cedo entrou casa adentro. Delicadamente, eu disse não. Ainda não é hora. E tem mais, quem vai cuidar quando eu viajar? Mas confesso que já está me agradando a ideia dela, é uma feminha, ser minha dona. Estou mesmo precisando de companhia e carinho, isso elas sabem dar. Vamos ver no que vai dar, se for para ser, será.

Bastet aqui citada, não originou “basquete” da NBB – esse papo de Novo Basquete Brasil, é triste. Nossa capacidade infinita de imitar. Tudo isso só para parecer com a NBA gringa.

Bom domingo, no mais Gerais, preguiça felina.







segunda-feira, abril 18

Intolerância




Minha filha trouxe de presente linda camiseta da Holanda. Malha de boa qualidade, preta, com uma estrela vermelha no peito. Sobre a estrela lia-se em letras brancas “Amsterdam”. Feliz da vida a vesti fui passear à toa como de costume.

Mania, vejo tantas histórias velejando entre gente, folhas e ruas que me custa guardar para um dia contar. Muitas dou conta de prender em meu caderninho roto de páginas soltas, agrupadas com clipes e fita durex. A maioria foge aos risos de minha memória falha.

E lá vou eu pensando na riqueza da vida, no prazer de ter olhos para enxergar e não apenas ver sem por tento. Sorria para mim mesmo. Do nada, começo a ouvir deboches agressivos, piadas de mal gosto, xingamentos mesmo. Não era comigo, pensei, mas era. Fui xingado, chamado de petralha e outros adjetivos que não vou nem citar, ninguém merece.

Pobres coitados, mal sabem o belo significado místico desta estrela para os cervejeiros da idade média. “A estrela vermelha vem dos tempos da Idade Média, onde os cervejeiros acreditavam que ela tinha um poder mágico. Cada ponta representa um elemento: terra, ar, fogo, água e um quinto elemento que acreditavam ser mágico até hoje é desconhecido.” (Fonte: site “Bar, Bebida e Propaganda”).

Foi nada não, tempo passou e numa pressa de sair agarrei outra camiseta, esta da “Bee” (sem jabá) onde estava estampado belo e colorido tucano. Em plena praça fui. Fui xingado, chamado de coxinha e outros adjetivos que também não vou nem citar, pois ninguém merece.

Pobres coitados, mal sabem o belo significado místico desta bela ave: “Também conhecido como tucano-toco, o tucanuçu é o maior dos tucanos, vivendo em todo o Brasil Central e em partes da Amazônia. No Cerrado e na Mata Atlântica, pode-se encontrar a espécie em maior número, em rápidas visitas a pomares e árvores com frutos.”

Os tucanos são, com as araras e papagaios, um dos símbolos mais marcantes das aves do continente sul-americano. Tomaram-me a estrela e o tucano. Com que direito? Vivemos um período de irracionalidade absurda, tanto ódio onde poderia reinar paz, tanto sectarismo onde poderia reinar tolerância. Que país é esse, Legião Urbana? Silêncio, todos da formação original da banda já se foram sem nos dar resposta.

Já que o rancor e a raiva não levam a nada, fecho com duas historinhas. Uma encontrei em rede social e a outra foi escrita por um especial amigo, cujo nome preservo. Conto depois se me autorizar. Quanta bobagem dos fanáticos/sectários de todos os lados, formas e tamanho!

As historinhas: 

Não entendi nada! Ontem fui fazer um lanche de final de tarde e pedi um sanduíche de mortadela (adoro!), quando fui pagar me deram trinta “real”, uma camisa da CUT, um boné do MST e me colocaram num ônibus, que me deixou na Praça da Estação. Estou voltando pra padaria pegar meu carro. Que saco!”

A outra: 

Que faaase!! Gozado, outro dia, pedi uma coxinha. Recebi uma camiseta amarela, com uma foto do Bolsonaro, um poodle cor de rosa e um cartaz pedindo a volta da Hebe Camargo. Pode?

Só falta agora um perseguir os canhotos e outros, os destros.








Jornal Correio 17 de Abril 2017



Caderno Revista, página 25


http://digital.mflip.com.br/pub/correiodeuberlandia/index.jsp?serviceCode=login&numero=23999&edicao=3575#page/24&ipg=136438