quarta-feira, setembro 27

(Des) ordem

Passam em bando num cantarejo sem fim. A força de suas asas é tamanha que criam vento, fazendo repicar meus sinos da felicidade, seguem em algazarra para árvore próxima.
Peitos estufados a cortejar namoro. Vêm filhotes por aí.
Primavera anunciada. Vão nascer com o chegar das primeiras chuvas.
Tudo em sincronia, nada fora do lugar, do tempo, da vida.
Minto, tem muita desordem mundo afora, no nosso entorno, dentro da gente. Em esforço de sobrevida fingimos nada ver, mesmo tanto olhando. Árvores são arrancadas por conta de um portão sem sentido. O lixo maquiado de luxo que nunca existiu.
Ah, mas em troca, você mata três e planta outro tanto. Pensou se justiça humana assim pendesse?

A seca castiga como de costume nesse inverno sem frio ou neve. E como de costume, por costume, ateia-se fogo por toda cidade. Um matinho seco, um roçado, arde em frieza, morte.

As corujas buraqueiras, do alto de postes de inanimado concreto, observam em agonia suas tocas serem devoradas, suas crias fadadas a horrível martírio. Pequenas Joanas d’Arc na morte, às avessas em vida. Aqui família empoleirada presencia sacrifício estúpido, sem soldados ingleses, sem canonizações póstumas.

A primavera se aproxima arrastada em poeira e cinza. Logo a chuva protetora trará vida, verde, cantos. As corujas terão outra chance. Escondidas de olhos humanos poderão ver filhotes voarem mudas em pios e bater de asas.

O bando de Pássaros Pretos, Canarinhos da Terra, Joões-de-barro em gritos, cantos e algazarra, pousam em nossa primavera. Fizemos ceva com quirera amarela/doce e farinha de pão. Tocamos o sino duas vezes, só duas vezes, eles vêm de longe buscar sustento. A cantoria encanta. Passamos horas a ver/ouvir. Nem goiaba deu. Árvore mutilada custa dar fruto outra vez.
A seca castigou forte este ano. Não secou apenas plantas e córregos, secou alma humana. Muitos que por perto circulam estão secos para um eterno sempre. Como deserto em suas entranhas nada mais vingará em vida e paz.
Nos conta Dante: ” […] cruzam rio pantanoso e cinzento rio Aqueronte, conduzidos por Caronte – o barqueiro dos mortos na mitologia grega. Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! […], anuncia, descendo o remo nos que hesitam em embarcar. Começa a descida pelos nove círculos infernais!”

Bicho homem! Apenas de ti tenho receio.

Busquemos nos encantos, que por vir estão, alento para nossas vidas. O Criador nos deu as costas ou apenas virou olhar? Talvez nem exista como o concebemos/acreditamos. Ainda há tempo. Rogai por nós.
Ordem e o que mesmo?


27 de setembro de 2017

Publicado em



quarta-feira, setembro 6

Mentiroso

Imagem capturada na web


Sem tem uma coisa que me impressiona absurdamente é o talento do mentiroso. Sério, não que eu concorde com essa nefasta atitude, pelo contrário odeio mentiras. Elas me cheiram a traição, covardia e tudo de ruim que acompanham estas palavras.
Não me refiro ás mentirinhas inocentes tipo “True Lies” ou “mentiras sinceras”, expressão cunhada por compadre. Exemplo clássico deste grupo, me remeto ao Barão de Münchhausen. Falo do mentiroso com M maiúsculo, que faz da prática meio de vida, com o objetivo de tirar proveito próprio em tudo. Perverso e degradante, passa por cima de qualquer um para obter seus objetivos, tendo como principal arma a mentira.
Perdoo quando o compulsivo sofre de impulso patológico. Apesar de difícil conviver, o melomaníaco carece é de tratamento, pois é um doente.

Mesmo com tudo que disse, uma coisa não dá para negar: o mentiroso crônico é um cara especial. Posso falar de cadeira, pois conheço vários. Já convivi com estes mestres do engodo, da enganação.
A fertilidade de imaginação desses caras é de fazer inveja aos aprendizes da arte de juntar palavras. Quer um exemplo? Qual aquele que escreve regularmente não passou por períodos curtos ou longos de estiagem criativa? Pois olhe, tempos em tempos acontece comigo.

Sento para meu exercício diário de buscar um contar e nada. As ideias correm de mim como bicho miúdo fugindo de onça. No alto das serras, matas ou em fundo de rio ou mar. As letras teimam em se esconder no topo de árvores, em caravelas naufragadas ou em grutas profundas e silenciosas. Aprendi lidar, apavora mais não. Depois de um tempo elas voltam pedindo lugar. Não há letra ou palavra que queira viver só. Querem companhia. Bem ou mal as amarro em filas imensas e viram isso, prosa, caso, histórias.
Voltando ao cascateiro, ao aldravão, ao trampolineiro. Além de imaginação ilimitada o cara tem que ter uma memória de elefante – sei lá eu se isso é verdade ou força de expressão – mas pensa bem, se ás vezes é duro lembrar-se das verdades, imagine lembrar os detalhes de uma mentira? Cara, o negócio é que as cascatas costumam ser recheadas de detalhes, de bordados tão fartos, que só um gênio para lembrar-se de tudo e tantas. Sofrimento sem fim, pois volta e meia cai em uma armadilha por ele mesmo criada. Jeito de viver não. O doente deve buscar ajuda. O cretino, além de desculpas por existir, deve buscar vergonha na cara e, se tiver, renascer o caráter.

Caso acontecido, Mestre contou, eu reconto com fé e você julgue em qual grau o peão deve ser classificado.
Morava em cidade até grandinha e tinha por gosto reunir com amigos em finais de tarde para cerveja gelada e jogar conversa fora. Naquele dia a conversa girou em torno de pescaria. Cada um tinha um caso de peixe maior do que outro. De Jurupoca a Dourado, de Matrinchã a gigantescas Piraibas de trezentos e tantos quilos.
Não podia ficar de fora da prosa, assim contou de seu rancho onde dava de tudo quanto há. Tinha ceva que para pescar e tinha que afastar peixe com a mão.

Animação geral, pois pesqueiro era não muito longe, marcaram encontro para fim de semana seguinte.
Assim passou semana de ansiedade e o dia chegou. Partiram leves.
O recanto era simples e agradável, uma represa na porta da casa e o rio, de pouca água e correnteza mansa, mais afastado.
Todos com muita disposição e vontade se puseram logo pescar.
E vai tempo e nada. Nada e mais tempo gastando. Olhe, disse um, vamos deixar varas em espera, assar uma carne e tomar uma, afinal ninguém é de ferro. Peixe que é bom, sei não. Já desconfiado que enganados foram.
Enquanto se divertiam sob sombra generosa de imensa gameleira, um deu sinal. Uma das varas de espera puxava emborcada como a mostrar peixe grande fisgado.

Desceram todos, afinal seria o primeiro depois de muito tempo ali.
Um puxa estiva sem fim, briga e tanto, daquelas de sangrar mão de pescador calejado.
O bicho finalmente mostrou o lombo escuro na flor d’água. Não dava para saber que peixe era ainda.
Algazarra infantil dos marmanjos. Olha que vem chegando!
Foi aí que o silêncio baixou. Para espanto de todos o que estava fisgado no anzol era peixe não, era um tatu peba dos criados.
Antes que qualquer um pudesse tossir, respirar ou fechar a boca de tanto queixo caído, o dono do rancho vociferou ligeiro:
— Num falei que aqui dava de tudo? Esse ai  é o terceiro tatu que pegam aqui.
Para lá ninguém voltou mais.







Em  6 de setembro de 2017

quarta-feira, agosto 30

Eternidade

Assim não dá, aí é sacanagem, e não vem com esse papo de olha quem está aqui te esperando. Pô, estamos falando de eternidade, cara.
E t e r n i d a d e, entendeu? Skilja? Verstehen? Capito? Fui clara, agora?
O combinado, o trato, se bem me lembro, foi só até que a morte nos separe, e pronto. Hellouoooo, até que a morte nos o que mesmo? Morte, SEPARE. Fim, The End, É Finito!
Pronto, morreu, separou, acabou! Nem vem que não tem, seus anjinhos do pau oco, isso sim é o que vocês são.
Eternamente que eu saiba só a Yolanda caraca, e aposto, duvi-de-o-dó que o Pablo Milanês e ou Chico nem a conheceram. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né! Sei.

Quero falar com quem resolve, chama o líder, ou seja lá quem for. Tá bom, o chefe está ocupado? Ah, mas deve estar mesmo, aposto que nem Ele tem paciência de ficar inventando desculpas esfarrapadas para todos que chegam aqui de bobeira.

Dá para imaginar o trabalhão d’Ele. Então faz o seguinte, me arranja o número do SAC daqui para ligar, um Procon ou seja lá o que vocês tiverem nessa bagunça. Ou, se não for pedir muito, pelo menos alguém do sexo feminino, aposto que ela vai me entender. Se é que sobrou alguma, né! Com essa conversa mole de tirar o sexo de quem vem dar nessa porta e vira anjo…
Não, não falei que não foi bom. Não começa a fazer joguinho nem colocar palavras em minha boca.

E depois dizem que só chefão de vocês pregou no deserto. Parece que estou falando pras nuvens!

Foi ótimo, passou de bom. Valeu cada segundo. Mas é que nem produto de supermercado, cara, aqueles do setor de frios, aliás em tudo hoje em dia. Tem composição, modo de usar, tabela nutricional e prazo de validade. Ouviu bem esse último? Prazo de va-li-da-de! Soletrando, às vezes, vocês entendem. Que coisa mais chata!

Depois só pode fazer é mal, adoece, se é que me entendem. Não estou nervosa! Não estou nervosa coisa nenhuma! Detesto quando falam que estou nervosa! Aliás, quer saber, estou sim, agora fiquei P. da vida, nervosa pra caramba.

E xingo sim! Não me peçam para não xingar. Passei a vida toda me segurando, me contendo para não falar palavrões, pudica ao extremo. Politicamente correta uma vida toda e para que mesmo? Ser engambelada agora? Sai fora, quero o prometido. O combinado não é caro. Cumpra-se e fim. Olha só, vamos resolver isso logo, ou vocês acham que tenho todo o tempo do mundo? E não me faz essa cara de cínico, não! Pode tirar esse sorrisinho da cara.

Olha atrás de mim, olha o tamanho da fila de reclamação. O pessoal está começando a ficar nervoso e isso vai dar rolo, estou avisando, vai dar rolo. Depois vão colocar no B.O. que a culpa é minha.

Ah sei, estou começando a achar que esse papo de céu é pura embromação, propaganda enganosa, isso sim. Sacanagem da grossa.
Pode conferir outra vez esses registros, aposto que tem coisa errada. Alguém anotou coisa fora do lugar, mas também, numa desorganização dessa! Informatiza esse trem pelo amor do Sagrado, o Cara deixa os outros criarem, mas Ele mesmo não usa?
Valha-me Deus! Bom, valha-me se resolver esse caso, senão vou atrás de meus direitos!

Vocês são engraçados, a gente faz tudo direitinho, cumpre fielmente nossa parte do trato e agora vocês mesmos, os donos do contrato, os donos da verdade, da Palavra, querem roer a corda? Na-na-ni-na não! Agora é minha vez, mano velho, sem essa .

Tá certo, tá certo, uma vez ou outra chegamos até a dizer que queríamos ficar juntos para todo sempre. Mas foi meio assim, me deixa ver, metafórico, sabe como, coisa de momento, palavras soltas e pronto.

Ao pé da letra? Que papo é esse de que levaram nossas juras ao pé da letra? E você quer que eu engula essa? E o monte de outras coisas que dissemos, planejamos, pedimos? Cadê? Onde foram parar a casa na praia, as viagens para a Europa. O aumento de salário, a Ferrari zero? Aposentar e mudar para a Polinésia francesa e morar numa ilha vizinha do Marlon Brando ou da Zeta Jones, dependendo de quem puxava o assunto… Cadê, cadê? E o tanto de coisa menor que também não rolou, mas não vou nem perder tempo em listar, pois aí, sim, iria durar uma eternidade e meia.

E querem que eu acredite que só levaram a sério umas jurinhas de amor feitas no calor do ímpeto? Tenho cara de imbecil, por acaso?

Faça-me o favor outra vez! E um DESSE tamanho.

Teste drive? Que papo é esse de teste drive de eternidade para ver se acostumo? Em que parte do contrato que estava escrito essa besteira? Nem em letrinha miúda.

De jeito nenhum que quero essa sua “generosa” oferta. Generosa o caramba, conheço bem o tipo.

Isso tá me cheirando a esculhambação, falta de gerência, de mando. Depois ficam choramingando pelos cantos dizendo que estão perdendo a freguesia para os outros. Também, trabalhando desse jeito. Quando um ou outro consegue voltar só tem pra contar da desorganização!

E ainda vêm aqueles malas falando de vidas passadas. De vida de princesa e coisas e tal. Se vocês não estão dando conta de uma vida, já estão querendo avacalhar até com essa umazinha, imagina com outras. Só se estão dando outras para todo mundo que reclama, aí mano, vai faltar espaço lá embaixo ou sei lá onde.

Ninguém merece, quer saber? Parei de brincar, minha paciência estourou, me leva de volta agora mesmo antes que eu arrume o maior pampeiro aqui. Se é para ser assim prefiro lá embaixo onde já estava acostumada.

Compensação pelo engano? Ah tá! Agora vocês querem negociar? Não tem negociação coisa nenhuma, combinado é combinado. Se vocês não têm a mínima competência para cumprir a parte de vocês, eu estou fora. Me mande de volta agora. Eu e ele também. Sei lá se ele arruma um rabo de saia eterno por essas bandas! Ciúme? Você ficou besta? Eu estou achando que esse lance aqui é muito machista. Vai todo mundo às favas, ô palavra boa de falar depois de uma vida inteira me controlando! Queremos voltar e pronto.
Não senhor, não vou perguntar para ele se ele quer voltar, ele vai e pronto, era assim lá e por que iria mudar agora.

Olha, me faz um grande favor, tá. Chega de papo, me devolve nossos prontuários, ou seja lá o nome que vocês dão e manda a gente de volta ligeirinho. Volto aqui mais nunca e quer saber por quê? Vamos virar budistas, assim quando passar daquela que vocês vão nos devolver, para outra, voltamos grama, árvore, passarinho ou qualquer outra coisa. Pelo que sei, eles ainda cumprem seus tratos. Tem dó, tenha a santa paciência. Aqui para vocês, ó. Não me pegam mais nunca! Essa vocês podem escrever. E não precisa fazer essas caras de zonzos, de purinhos, não. Cara de santo não me comove hoje, não. Tô fora.





Jornal Uberlândia Hoje em 30 de agosto de 2017


quarta-feira, agosto 16

Centro de Controle de Zoonoses

Aqui se fez História. Clique na foto para ampliá-la



Curioso, outro dia um conhecido de longa data que não via, nem o ouvia há tempos, do nada me ligou.
Depois das conversas de sempre entre dois que não se falam há séculos, veio o real motivo da ligação. Pessoa de quem gosto e considero mas, não era saudade que o levou a descobrir meu telefone e fazer contato. A razão da ligação foi técnica, digamos assim. Ele está a preparar sua qualificação em algum mestrado e este envolve o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). Segundo ele, em suas pesquisas e levantamentos bibliográficos nada encontrou sobre a história daquela unidade da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia. Creio eu que em algum lugar estes dados devem estar registrados mas pesquisar é moroso e chato para quem não está acostumado, compreendo. Como testemunha viva participei da elaboração do projeto inicial, da peregrinação pelos gabinetes do Ministério da Saúde em Brasília na busca de recursos, cumprindo cada etapa de um vai e vem sem fim.

Conseguimos a fórceps captar parte dos recursos necessários. Escolhemos a área e participamos de todos os tramites legais, passando pela interminável e aborrecida burocracia, até ficar do jeitinho que eles lá queriam. Como testemunha ocular, colocamos o primeiro tijolo no que viria a ser o primeiro Centro de Controle de Zoonoses do interior do país. Luxo este de poucas capitais até então, o qual viria ser reconhecido como referência nacional em poucos anos de trabalho árduo.

O que nos levou a idealizar e focar na implantação de um CCZ em Uberlândia dizia respeito à avassaladora presença da raiva animal entre nós. O vírus rábico circulava sem o menor controle e a primeira missão destinada a mim como médico veterinário seria exatamente trabalhar para conter tão letal doença, para animais bichos e humanos.

O ano era 1983. O prefeito à época Dr. Zaire Rezende (1983-1988) e o secretário de saúde Dr. Flávio Alberto Goulart.
Cabe aqui contar que em meu período como estudante em nossa Escola de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia, na qual me formei em 1980, uma das máximas de nosso professor de Histologia, hoje pela segunda vez Secretário Municipal de Saúde, Dr. Gladstone Rodrigues da Cunha sobre a complexidade do processo saúde/doença era:
“O que é comum é comuníssimo, o que é raro é raríssimo". Carrego comigo tais ditos até hoje e os deixo fugir do academicismo puro aplicando-os em minha vida. Gratidão a todos os meus mestres.
Bom, voltando à vaca fria.

O então denominado Centro Regional de Controle de Zoonoses (a ideia inicial era criar um consórcio entre municípios) repito, o primeiro do interior do Brasil, foi oficialmente inaugurado em março de 1988. A primeira fonte de captação de recursos foi o antigo e já extinto Programa Nacional De Zoonoses (PNZ), órgão do Ministério da Saúde e à época coordenado pelo Dr. Carlos Alberto Viana Costa.
Como disse, o objetivo inicial do CCZ era controlar a raiva animal.

Ações incontáveis foram desencadeadas, a começar com uma super e massiva campanha de vacinação da população animal, posto que no ano anterior esta não foi realizada. Trabalhávamos em parceira com a Policia Militar que cedia pessoal e com alunos do Curso de Medicina Veterinária UFU, eu mesmo já tinha participado de várias à época de estudante.
Projetos de educação em saúde, palestras, feiras, cartilhas e até um "CãoCurso" do Vira-lata mais bonito foi realizado. Árduo, contínuo e incessante trabalho. A doença mostrava sinais de cansaço e de um constante recrudescimento, começando a rarear, diminuir.
Assim, em setembro de 1997 ocorreu o que consideramos o último caso de raiva animal urbana diagnosticado em nosso município, em um pequeno gato de aproximadamente sete meses de idade.

De lá para cá, nenhum caso da doença foi registrado e graças à vigilância permanente, sem nenhuma solução de continuidade até os dias de hoje, a raiva passou a ser um problema a menos na saúde coletiva de nosso município. Claro que a ameaça de retorno vai sempre existir. Basta as ações de controle de vigilância afrouxarem ou serem interrompidas que a doença, 100% letal, pode voltar com força total. Saúde é assim, atenção absoluta se faz necessária. Hoje a raiva segue seu ciclo, sua história natural e continua circulando onde sempre esteve, na população de morcegos. É importante frisar que estes morcegos urbanos não oferecem risco à população e são protegidos por lei, pelo bem enorme que fazem ao ecossistema. Em caso de morcego caído ou voando durante o dia, contate o CCZ e jamais toque no bicho, pois ele pode morder para se defender e aí moço é procurar orientação médica imediatamente.

Missão comprida no que diz respeito a Raiva animal, outras e importantes atribuições foram sendo agregadas ao CCZ, principalmente depois que participamos do Curso de Especialização em Gerenciamento de Centros de Controle de Zoonoses, realizado no CCZ de São Paulo realizado pelo Ministério da Saúde, da Organização Pan-americana de Saúde e da Escola Nacional de Saúde. Com carga horária de mestrado, aprendemos muito com os melhores.

Muitas destas novas atribuições ligadas a bichos não eram percebidas pela população. O problema dos escorpiões é um exemplo. A população convivia com os mesmos, desconhecendo os riscos que estes poderiam oferecer à saúde. Acidentes eram comuns.
Durante os anos em que atuei no controle e manejo de escorpiões, mais de três décadas, tivemos um único óbito, cuja criança foi socorrida a tempo, recebeu soroterapia, mas por algum motivo, que os próprios médicos não conseguiram explicar, a pequena não pode ser salva. Foi um baque para todos envolvidos na ação de controle e do corpo médico que a atendeu, dentre eles o Professor Dr. Paulo Victor, o PV, como o chamávamos. Super especialista no assunto e que nos deixou precocemente. Perda irreparável.

Assim à medida que o tempo passava outros programas eram incorporados: Roedores, Chagas, Malária ( diagnóstico e tratamento ), Quirópteros, Leishmaniose e finalmente Dengue. Este foi o grande avanço do CCZ, a municipalização do programa de controle de Aedes, antes atribuição da extinta SUCAM. Um programa que considero referência pela maneira sua atuação. Claro, como é um programa gigante ficou vulnerável em várias ocasiões a ingerências políticas, sendo estas um dos maiores erros das administrações públicas no Brasil, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Áreas técnicas que funcionam deveriam ser intocáveis. Um exemplo? O coordenador do CCZ na gestão do prefeito Gilmar Machado ( 2013-2016) era um leigo e, quer queiramos ou não, isto em muitas ocasiões atrapalhava o andamento técnico das ações em saúde.. Inconcebível. Tinha boas intenções? Talvez. Mas é o bastante para gerenciar uma estrutura eminentemente técnica? Jamais. Foi um fiasco e imenso retrocesso, não apenas no Controle de Aedes mas afetou quase, senão todos programas.

Registre-se o Programa de Controle de Aedes, vou chamá-lo assim ai de uma tarrafada só englobamos dengue, zica e chikungunya, conseguiu superar todas ondas contrárias e de gerenciamento e segue de vento em popa e com resultados alvissareiros. Deus, dirigentes e técnicos competentes o conservem assim.

Mudando de pau para cavaco. Convém registrar que as primeiras contratações feitas pelo CCZ foram realizadas por meio de seleção entre os moradores do Bairro Santa Rosa e Liberdade, local onde implantamos o Centro de Controle de Zoonoses, no qual este ainda está firme e forte. Naquela bairro então ermo, longe e de difícil acesso foi realizada uma prova teórica, uma avaliação psicológica e entrevista. Tal seleção contou com a participação direta da Associação dos Moradores do Bairro. A ideia e a determinação do então prefeito Zaire Rezende apontava para este procedimento. O lema daquela administração era "Democracia Participativa" e as organizações populares deveriam se envolver. Não tenho segurança para afirmar que o melhor caminho foi exatamente esse, já que em pouquíssimo tempo quase nenhum dos "aprovados" na tal seleção continuava morando no bairro.

A primeira ampliação física de nosso CCZ aconteceu na administração do Prefeito Virgílio Galassi (1989/1992), da qual participei também na discussão de projetos . Embora modesta em se tratando de estrutura física, foi substancial no que tange a equipamentos e veículos. O crescimento já demonstrava que nosso trabalho tinha sua importância reconhecida. No período de longos onze anos o Dr. Dorival Sanches e logo a seguir o Dr. Paulo Roberto Salomão, estiveram à frente da Secretaria Municipal de Saúde e nos deram apoio irrestrito.
Na administração do prefeito Paulo Ferolla da Silva ( 1993/1996 ) foram implantados os laboratórios de sorologia, entomologia e de animais peçonhentos, do qual fiquei à frente até fevereiro de 2017 quando fui afastado das ações de campo e manejo. Coube a mim e alguns de minha antiga equipe cuidar do biotério de escorpiões onde realizamos manutenção, quarentena, identificação de espécies e estudos etológicos de comportamento dos escorpiões. Nele continuamos a preparar lotes de animais para envio a laboratórios oficiais produtores de veneno, como a Fundação Ezequiel Dias e o Instituto Butantan. Digo sempre e repito, salvar vidas humanas continua sendo o meu sacerdócio.

O período de 2001 a 2004, novamente sob a administração do Prefeito Zaire Rezende, foi tristemente sofrível para todos os setores da prefeitura. Os escassos recursos e certa confusão administrativa bloquearam o muito a fazer. Enfim, a história fará seu julgamento, assim como fará do ciclo há pouco encerrado da gestão Gilmar Machado (2013-2016) onde, repito, sofremos pressões absurdas por parte de coordenações do CCZ.

O grande "jump" no que tange a estrutura física e reorganização do CCZ se deu nas gestões ( 8 anos) do prefeito Odelmo Leão Carneiro (2005/2012), na qual em16 de janeiro de 2009 reinagurou-se o CCZ, completamente reformulado, com novas instalações e estrutura. Na ocasião tive a honra e a surpresa de presenciar o "batismo" do Centro de Controle de Zoonoses com meu nome. Honraria esta que divido com cada um que ali colocou seu esforço, trabalho e dedicação.

O referido período foi de muito crescimento, tanto em sua estrutura, quanto no reconhecimento nacional. Pudemos participar como um dos autores do Manual de Controle de Escorpiões junto ao Ministério da Saúde, com um fantástico grupo de profissionais, todos especialistas em escorpiões.
Fomos ainda convidados a participar do MANUAL DE VIGILÂNCIA, PREVENÇÃO E CONTROLE DE ZOONOSES, NORMAS TÉCNICAS E OPERACIONAIS, trabalho minucioso e demorado do qual participaram especialistas de todo o Brasil. Sua publicação, depois de longo período de gestação e em conjunto com a Portaria do Ministério da Saúde de N° 1138/2014, revolucionou o modus operandi dos CCZs . Publicado apenas em 2016 é um documento que consolida o controle de zoonoses e animais peçonhentos no Brasil. Apesar de redação clara e objetiva, muitos o interpretam de acordo com suas conveniências.

Não tenho intenção de julgar a forma de atuar de cada gestão pelas quais passei ao longo de mais da metade de minha vida, apesar de me sentir seguro e capacitado para fazê-lo, caso resolvesse descer às filigranas, a detalhes que bem conhecemos. Quanta coisa a contar. Não, não é esta a intenção pelo menos aqui neste breve relato, súbita catarse. Bom, breve para quem ainda tem costume de ler.
Aqui quero, (me desculpem o uso da primeira pessoa com tanta frequência, mas logo abaixo vou me redimir), deixar apenas uma simples narração do que foi uma vida de trabalho e realização pessoal.

Podem me tomar tudo ou não gostar de mim, mas apagar o que construímos em prol da saúde coletiva de nossa gente, isso meus amigos e inimigos, roam ossos, por mais que apaguem arquivos, feitos, arranquem placas ou mudem nomes de estruturas, minha, nossa história tomam não. Uma coisa carregaremos eternos, herança de trabalho duro e muita entrega. Lembrança que deixaremos para nossos filhos e netos. A marca do pioneirismo, da trilha, da picada aberta a paixão, a alegria que todos que chegaram e/ou chegarem depois terão obrigatoriamente por ela passar, acaba nunca, temos sim o orgulho se poder dizer com orgulho: Fizemos.
Aqui destaco os "dinossauros" que lapidaram esta estrutura tão importante desde o comecinho,desde o primeiro tijolo. Alguns já partiram para o Oriente Eterno, mas serão para todo o sempre lembrados:
Edilson Medeiros de Macedo, Jovenil Gomes da Silva (†)
Paulo Cesar Ferreira, Oscar Carvalho, Abadio Antonio da Silva, Anadir Batista Silva, Jurandir Maria Terezinha, Sonia Maria de Freitas, Darci de Freitas, Almeri Joaquim, Seo Divino Vigia (†), Batista, Seo Franciso, Seo Vicente (motorista de nossa espetacular e restaurada Kombi 1966),  Wellington.
Se esqueci de alguém me perdoem ou me lembrem. Culpem o tempo.
Espero em breve apresentar a história esmiuçada de nosso Centro de Controle de Zoonoses, recheada de histórias e muitas fotos, cujos primeiros esboços já estão prontos. Chamemos pois este breve resumo de um prelúdio da grande história.

A árvore plantada cresceu forte, abriu copa, deu sombra farta e frutos maravilhosos. Que, como uma Sumaúma, um imponente Jequitibá ou um sagrado Baobá, ela se perpetue e tenha estrada e belezas a realizar e escrever, sempre objetivando o cuidado com a vida animal e das gentes humanas.
Longa vida ao CCZ.







Publicado em Uberlândia Hoje em 11 de Agosto de 2017

quarta-feira, julho 19

Here there and everywhere

Não sei, por mais que se viva atento, tem um bando de coisas que nos fogem, escapam aos olhos, ao sentir, ao mais profundo e silencioso pensar. Manada de enormes girafas em seu absoluto silêncio passam às suas costas e você, entretido com um nada, deixa de perceber.
Não sei. Tiro noites a sonhar estrelas que, dizem , nem mais existem. Só nos chega um brilho espectral, eterno viajante a assombrar e encantar. Te conto baixinho que estas fantasmas de luz quando contadas a dedo fazem nascer verrugas, um perigo. Sobre nós um falso céu estrelado, mas como fogo fátuo, Boitatá protetor, continua a esquentar peito com beleza, sonho e poesia.
Penso, não sei direito, se tudo assim anda de formosura solitária nós também rumamos para um deserto de emoções puras.

Namoro/amor/encanto de aplicativo dura mais do que o vivido, tocado. Passam-se anos de convivência boa com troca, carinhos, amor, risos e afagos. É só entrar no relacionamento que aplicativos, trocas de mensagens, imagens, defectíveis mensagens vazias de bom dia, de oba chegou sexta-feira, fazem com que aquelas 24 horas chamadas segunda-feira tornem-se nossas inimigas, a lembrar que a vida não é para um fim de semana. Os aplicativos ampliaram ou deram voz e rosto ao ódio pela semana, raiva da vida.
Os risos, as gargalhadas transformadas em ridículos kkkkk, jajajajaja espanhóis, lol ingleses, risos de polidez, de cyber-etiqueta , Socila dos novos tempos.

O beijo, uma careta horrível com beiço de chipanzé. A expressão máxima do amor, outra cara de lua amarela com dois corações no lugar de olhos. Para cada expressão ou sentimento, uma figura.
Relações não podem existir fora das redes.

Você chega em casa recebe um oi, um beijo por um “app” que não significa área de Preservação Permanente” e muito menos “áreas de aproximação”, do inglês em torres de comando aéreo ” approach control”, mas algo como “aplicativo”. Aqui o app virou zap. O que seria numa analogia sonora gringa com “what`s up”, aqui, na bruta, virou ‘uatszapi” ou “zap” ou, pior ainda, “zap-zap”.
Sei, sei. Não sou o primeiro e acredito não serei o último a falar desses alienadores programas.

Assim meus amigos, dada as circunstâncias, resolvi falar o menos possível. Vou aderir a todas as tecnologias de comunicação, reduzindo palavras, rindo em Ks, chorando em snifs ou carinhas tristes. Desejando bons dias e espalhando ops, compartilhando curtidas e améns para não quebrar correntes nas quais até o filho Dele está batendo à sua porta, acompanhado quase sempre de alguma frase tipo “se você acredita, veja o que vai acontecer em sua vida”, além de fazer papel de idiota, é claro.
Vou salvar vidas de crianças com doenças raríssimas onde cada “curtida” vale uma doação virtual. Não vou procurar saber se o que compartilho é verdade ou um “Hoax” – olha a palavra criada para falso. Parece ou não nome de dragão nórdico, inimigo do Thor e assassino de aldeias Vikings? Pelo menos a linda e deliciosa donzela ele leva. Bobo nada!

Não sei. Quer saber ? Sei sim! Em um mundo real onde o assédio moral é uma constante e se traduz em isolamento e descaso, as redes sociais têm até um papel importante em denunciar o errado e de mobilizar. Sabendo usar são fantásticas. Aliás, sobre assédios e isolamento está no prelo um imenso artigo/crônica/caso. Sem pressa vou tecendo essa história e hora conto.
Use bem, mas quer um conselho? Quando chegar em casa, no bar, “here, there, anywhere”, desligue Faces, Instagrams, Twitters, Whatsapps. Desligue tudo! Caso contrário suas relações afetivas estarão por um fio.

E, queridos, quando quiserem um pouco de isolamento leiam um livro, escolham um bom filme, pois assim, mesmo longe, jamais ficarão irritados com chamados à cozinha, ao jardim para ver flores ou ao quintal para namorar lua e brilhos de estrelas que, para você, jamais estarão mortas. Eternamente belas e singelas.






Publicado em Uberlândia Hoje em 19 de julho de 2017

terça-feira, julho 18

Foda-se




"Voto para Membro Eterno da ABL!

Millôr Fernandes escreveu e publicou milhares de toneladas de textos, incríveis e infernais textos, usando uma máquina de datilografia. Um gênio pré-histórico sem igual, sobretudo por sua eterna atualidade. Data vênia, aliás, máxima vênia, respeitando a sensibilidade dos mais pudicos (que não devem prosseguir lendo), selecionamos um de seus escritos mais memoráveis, sua tese de doutorado para aplicar xingamentos no momento certo e exato.
Para vocês o FODA-SE, do maior filósofo ipanemense de todos os tempos, Millôr Fernandes."

Ricardo Kohn, Escritor.


"O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha autoestima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.

─ Não quer sair comigo? Então, foda-se!

─ Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então, foda-se!

O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.

É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Pra caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade do que pra caralho? Pra caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do Pra caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!.

O “Não”, “não é não!” e tampouco o “nada eficaz” não têm mais nenhuma credibilidade. Não, absolutamente não o substituem. Mas o Nem fodendo é irretorquível e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranquila, para outras atividades de maior interesse em sua vida.

Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: Marquinhos presta atenção, filho querido, Nem fodendo! O impertinente se manca na hora!

Por sua vez, o porra nenhuma! atendeu tão plenamente a situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional:

─ Ele redigiu aquele relatório sozinho?, porra nenhuma!

O porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone – presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba…

Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! Dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!?

E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:

─ Chega! Vai tomar no olho do seu cu!. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: ─ Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda:

─ Fodeu de vez!

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar. O que você fala?

─ Fodeu de vez!"


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segunda-feira, julho 10

Praça

Foto: William H Stutz


Engraçado, a passagem nem era para virar escrita, mas uma foto, na verdade várias em uma rede social plantou o pensar dentro de mim e, por bem, acho melhor compartilhar. Assim são as histórias. se você é do tipo que olha o entorno com olhos de bicho ou de atirador sabe do que estou falando. Tudo quanto há vira narrativa, vira conversa vira assunto.
Não gosto de descrever o horror, o feio lado da alma humana ou das coisas, das pedras, dos bichos, das árvores.
Desvio olhar de acidente acontecido, as gentes se aglomeram para apreciar o trágico, corto volta. Se acontece na hora paro ajudar, mas não procuro horrores, me apego a amores.

Assim seguindo para resolver assunto passo pela praça e me dou mais uma vez com o espetáculo do belo vestir da linda da praça. Todo ano assim se faz, primeiro se desnuda em sensual cair de vestes folhas. Nua se deixa ficar. Poucas a olham. mas de salto em pleno romper de manhã esplendorosa de um finzinho de junho ainda cheirando a pólvora dos foguetes dedicadas aos santos, eis que em pudor adolescente se veste em traje de gala. De folhas, agora flores em profusão estonteante amanhece linda em lilás vivo. Se nua atenção não chamava, agora, raro aquele que não lhe dirige um olhar mesmo ligeiro. Por alguns segundos ou fração esquece problemas, desgostos, rotina, planos. Por mais breve que seja, aquele simples olhar leva a lugares ocultos dentro de cada um. Cheiro de mato, colo de mãe, beijo de filho, abraço de amigo, ranger de porteira, latido do primeiro cão da infância. A namorada que ficou escondida no passado, talvez a o primeiro toque em seio de mulher.

 Mesmo o mais distraído mesmo sem querer, sem sentir/perceber se projeta longe, até que a buzina do carro de trás o faz movimento. Automático, o olhar da bela da praça para o retrovisor, não viu direito nem um nem outro. Mas ela deixou um gosto doce na alma, imperceptível mas deixou. Todos chegarão em casa mais leves como se anjo lhe cantasse aos ouvidos suave perfume.

Ligeira, tempo curto. Aos poucos, com sensualidade, gestos milimetricamente calculados, se despe serena. Olhos desejosos observam suas vestes a cobrir chão agora transformado em deleitoso tapete. O erguer da vista é sem querer, nascem sorrisos e suspiros. Ligeira, tempo curto logo amanhece plenamente nua. Devagar, botões a lhe fazer cócegas vão muito lentamente cobrindo seu corpo, galho a galho, não há mais plateia.
Morosa, já naquele instante inicia ensaio
para sua apresentação em outro finzinho de junho, ar cheirando a pólvora de foguetes que tanto céu seco iluminaram em louvor a santos, e são tantos os santos.







Publicado em Uberlândia Hoje em 5 de julho de 2017

quarta-feira, junho 28

Cabides

Essa vida volta e meia nos apresenta cada mistério. É tanto fato estranho que até Deus duvida. E olha que não estou me referindo a fantasmas, gnomos ou fadas, não. Observo fatos do cotidiano. O sobrenatural nosso de cada dia, acontecidos que se repetem bem debaixo de nossos narizes. Um desses grandes arcanos domésticos diz respeito aos cabides. Isso mesmo, cabides, esses de pendurar roupas.

Certa feita sugeri em um conto que, volta e meia, os inanimados ganham vida própria. Tive uma máquina de lavar roupas que era assim, nós a chamávamos carinhosamente de Daiane dos Santos, pois tinha complexo de ginasta, e até o duplo carpado twist esticado, especialidade de nossa querida atleta, ela, a máquina, aprendeu a dar.
Depois dela, passei a observar os objetos de casa com outros olhos e tenho a convicção de que, como nos desenhos, em alguma hora do dia ou da noite, longe de olhos, eles ganham vida e aprontam das suas.

Minha mais recente experiência diz respeitos aos tais cabides. Estes, como todos sabem, mesmo possuindo as mais variadas formas e serem compostos por materiais diversos têm, é claro, o mesmo objetivo e função. Lá em casa, além dessa finalidade são largamente usados para abrir janelas de banheiro, uma vez que alguns não foram agraciados com estatura muito elevada. Temos cabides de várias, digamos, castas e cada uma se comporta à sua maneira. Temos aqueles mais frágeis que, à primeira vista, quando são comprados, detêm aparência de robustos. Ledo engano, à primeira calça jeans mais pesada literalmente abrem o bico e a pega do guarda-roupa deixa de existir, desmontam como pipas rasgadas por vento forte bagunçando e amarrotando tudo.
Temos aqueles cujo plástico imita vidro ou cristal, são mestres em quebrar a haste do meio e, aí, passam a servir para dependurar camisas.

Quando morávamos na roça, um mestre oficial em marcenaria italiano, Seu Pedro Talarico, caprichosamente fez, a nosso pedido, vários cabides de madeira. Pequenas obras de arte, pois eram entalhados em peça única de madeira, sem emendas. O único defeito, se é que assim se pode chamar, eram os ganchos que colocamos, com o peso perdiam a rosca e despencavam. Na realidade dever-se-ia utilizar tiras de trapos para amarrá-los ao cabideiro, a ideia dos ganchos foi nossa. Até hoje guardamos essas raras e belas peças.

Os cabides passaram a fazer parte daqueles que têm vida própria.
Já notaram que, sempre que alguém precisa de cabides, eles desaparecem? Na hora de passar ou lavar roupa, sempre que você precisa não os encontra em número suficiente? E não adianta comprar mais não. Ao chegar em casa com dois ou três pacotes de cabides novos, temos a sensação de que nunca mais vamos ter que nos preocupar. Mas qual, uma semana depois para desespero nosso, onde por Deus se meteram esses monstrinhos? Sempre faltam e muitas peças de roupa ficam aguardando vaga, tal e qual restaurante em São Paulo ou estacionamento em zona azul.

Esse é um mistério que guardo para quando aposentar. Descobrir o destino, o rumo que esses caras tomam. Infelizmente, em nosso querido Brasil, o único tipo de cabide que não acaba, nem some, aliás, como ratos se multiplicam, são os nefastos cabides de emprego. Estes, para tristeza da nação, por mais que queiramos, não damos conta de fazê-los desaparecer. Não é incrível?






Publicado em Uberlândia Hoje  28 de junho de 2017

quarta-feira, junho 21

Seda

Era um bichinho miudinho e não entendia a que veio.
Ficava o dia todo vendo seus iguais roerem folhas de amoreira numa tagarelice muda, todos a mastigar tenras e verdes folhas.
Tempo ido tocavam todos a se enrolar em casulos finos lindamente decorados de brilhantes fios prateados. Crisálidas únicas, perfeitas, iguais.

Por força de jejum voluntário atrasava seu curto ciclo.
De ninfa queria ser borboleta. Seu destino era voar. Queria o céu.
Observava que seus irmãos eram levados embora cedo, assim que morada prateada construíam. Nunca os viu de asas abertas a secar em preparo para vôo de liberdade.

Abandonou as folhas, alimentava-se apenas dos frutos, púrpuras e doces amoras. Quando por fim lhe veio o sono encapsular, teceu turmalinas, fios violeta-púrpuros como salsifis deslumbrantemente mágicos. Sua seda de tão pura e diferente cor passou despercebida das humanas mãos escravizadas pelo hábito, e em bela manhã rompeu fagueira. E na mais linda das violetas borboletas se transformou. Partiu.

E os homens mais uma vez, mergulhados em daltônica ignorância, presos em sua cobiça e mesmice, deixaram escapar por entre os dedos oportunidade única, rara jóia, a preciosa seda de um majestoso e único violeta.

Em Uberlândia Hoje, 21 de junho de 2017



quarta-feira, junho 14

Destino

Uma libélula voa apavorada em minha sala. Faz-se noite, não posso nem abrir janela para deixá-la ir-se, viraria presa fácil. Seu voo helicóptero a conduz em direção ao globo de luz. Bate de frente. Recuo preocupado. Ligeiro, bato a mão no interruptor e a escuridão se fecha. Ouço o aflito bater de asas procurando pouso. Nada, achou foi a luz da cozinha. Sigo sua agonia.
Vontade de pegar nas mãos, guardar em caixa de sapato e soltar amanhã com o frescor do orvalho. Melhor não, elas são frágeis como algumas pessoas especiais em sentimento. Quebram facilmente, não quero magoar nem bicho nem gente. Apago tudo. Acendo pequena vela. Tenho paixão por luz de vela, o que devia imaginar é que libélulas também.
Me dou conta que armei armadilha mortal para aquelas asas de pura e transparente seda. Em investida suicida roçou asas na chama perfumada. Senti aperto no coração, frio na espinhela. Em voo aparentemente derradeiro topou forte na parede. Imóvel se fez no chão frio. Acendo a luz com um sentimento de culpa gigante. A vejo, atrás do aparador. De canto de olho, miro meu São Jorge, presente de uma amiga especial. Peço em milésimo de segundo que me preserve de tamanha imputação.

Com cuidado de quem já está mais do que acostumado a lidar com as miudezas da vida, como cobras de vidro, escorpiões e sentimentos de alma, recolho a frágil figura.
Óculos, meu reino por um par de óculos. Devidamente com olhos, a observo cuidadosamente. Nada que mostre machucado, nada que a impeça de alçar voo. Talvez tonta pelo espanto de um tremular de fogo. Talvez a essência aromática a tenha abatido. Fico com ela na palma da mão por imensos minutos. Uma perna se mexe, estica devagar. Uma asa, outra asa, quatro asas e tremor, de motor de B-29, porém sem escândalo característico das máquinas de guerra e morte. Uma anteninha curiosa vibra. Num golpe rude alça voo sem rumo. Sigo com os olhos e sei bem onde pousou.

Volto à escuridão minha casa. Escovo dentes mergulhado em negrume. Ligo meu rádio que não mostra fonte de luz, apenas um botãozinho amarelado. Amanhã, a moça está solta. Janela aberta, olho um céu de estrelas, começo cochilar. Um zumbido vem rápido cantar em meu ouvido. Ponho atenção e mão em concha, espero. Cantou outra vez. Certeiro tapa e lá se foi mais um pernilongo, esparramado em minha mão. Sorri com aquela morte. Nunca vou entender gênese humana, passa horas salvando uma libélula e, de cara limpa, mata seu vizinho ou se destrói em solidão, quem lhe deu tanto poder? Como pode simples criatura ter assim destino de tantos outros seres viventes?

Bom, se foi a Diretoria lá do alto, está na hora Dele convocar sua bancada toda e rever conceitos de humanidade. Quem sabe não está na hora de dar por encerrada sua obra, assinar embaixo e pendurar numa parede celeste. Quem sabe coloca tela nova, branquinha e começa tudo outra vez, mas, desta feita, usando tintas, de cores mais suaves. Dizem que já fez isso uma vez e pediu para que casal de cada ser vivo fosse ajuntado. Mas se for fazer o mesmo e despachar os casaizinhos pela galáxia afora, por favor, Senhor, não leva casal de gente nem macaco, lembra de Darwin, ah, nem de Aedes, pelo Amor de Deus, quero dizer, pelo Seu amor. Amém.






Publicado em Uberlândia Hoje  14 de junho de 2017

segunda-feira, junho 5

Tédio

Fico encantado, ou pasmo, não sei, só de me imaginar nas situações descritas por uma grande amiga virtual que adora a urbe, os congestionamentos, as filas de restaurantes, os shoppings lotados enfim a confusão das grandes cidades. Para ela a vida nas cidadezinhas se resumiria a jogo de damas em praça pública.
Amiga, cidadezinha (meu sonho daqui a muito pouco tempo) não é só jogar damas, gamão ou xadrez em mesa de concreto em banco de praça, não é não.
Partindo daí tem a própria praça, imagino imensas e frescas sombras de árvores centenárias onde pela manhã a algazarra dos passarinhos ajuda a acordar as gentes, vejo ainda esta mesma praça cheia de crianças correndo para a padaria ou para a escola sob o olhar atento daqueles sentados junto aos tabuleiros: " Aquele menino é de fulano, arteiro que só, vive a roubar carambolas lá em casa".

Onze horas religiosamente, o comércio fecha para o almoço, até os restaurantes assim fazem. Exceção por conta de alguma venda onde o dono, com prato de ágata branco descascado e com friso azul, come de colher saboroso arroz, feijão e carne de lata feita ali mesmo por sua mulher em velho fogão de lenha, pois a vendinha está junto à casa deles. Ah, tem também taioba refogada com pimenta bode, angu e quiabo.

As ruas de pedra evocam antepassados tropeiros e suas boiadas imensas que, naquele tempo cruzavam a rua da praça da matriz, aquela dos tabuleiros. Agora mais não, fizeram um corredor ao lado da estrada por onde as raras boiadas são tangidas, exigência do padre, atrapalhava a missa.

À tardezinha, muita gente chegando da roça, outros do mar, esqueci de dizer que cidadezinha fica beira-mar, e a algazarra agora é dos mais velhos contando acontecidos do dia.

Anoitece. Muito o que fazer. Sentar-se a ler um bom livro em varanda bem em frente à praia, recebendo a perfumada brisa do mar, caminhar na areia e deixar a cabeça voar a visitar outras galáxias, sentar-se com a companheira, com amigos, ou só, em um bar de cobertura de palha com os pés na areia e tomar uma cervejinha gelada acompanhada de delicioso peroá frito, pedir para desligarem o rádio para poder ouvir o eterno e cadenciado quebrar das ondas, isso em plena terça-feira.

Olhar para o céu e não se espantar com as milhares de estrelas, afinal está familiarizado com elas, são tuas amigas e te apontam nortes e contam histórias.

Chegar em casa e sempre encontrar o portão baixinho e de madeira aberto, assim como as portas das varandas dos alpendres, e as imensas janelas. Abertas, sempre abertas, dia e noite. O lá fora integra o lá dentro, coisa só, meu jardim é o mar, meu quintal a mata e as montanhas da serra.

No dia seguinte, banho de cachoeira, descarrego, culto respeitoso a Oxossi dos nagôs, Agbê dos jejes, Congombira dos bantos. Filho de Iemanjá, irmão de Ogun e de Ossain, sempre de Ofá em punho a proteger os bichos, a mata.

Da floresta para praia outra vez, agora toca a ajudar a puxar o arrastão da manhã, rir com os amigos, pé na areia alma leve e limpa. Rede toda na areia, recolhe um punhado de camarões, dois linguados para o almoço, e uma estrela do mar que em gesto rítmico e manso devolve feliz à segurança das águas.

No fim de semana filhos devem chegar para as férias, vêm com namorados, toca abastecer as geladeiras, a arejar os quartos e vestir as camas com lençóis cheirosos.

Ficam poucos dias, depois de semana ou pouco mais acham um tédio, sentem falta dos shoppings, engarrafamentos, das filas nos restaurantes.

Nem por isso deixamos de tanto amá-los, de tão felizes ficarmos quando aqui, em nossa modorrenta vila nos visitam e compartilham alegres de nosso tédio.

Minha mãe costuma dizer que existem dois tipos de gente: os terráqueos e os espaciais. Os terráqueos são aqueles apegados à terra, à natureza, adoram tudo que é simples e conseguem ver beleza em pequenos vôos de borboletas e em tempestades tropicais. Os espaciais não se adaptam ao planeta, sentem sempre uma saudade, uma falta de alguma coisa que não conseguem explicar, não se dão bem com as coisas daqui, insetos os incomodam, adoram o conforto extremo e a tecnologia pura os atrai sobremaneira. Vivem em eterna angústia e não sabem nunca o motivo, insatisfação permanente e por vezes dolorosa.

São descendentes diretos e mais apurados geneticamente de nossos colonizadores extra-terrestres, povo super evoluído que aqui deixou sementes ao se juntar aos nativos.

No meu caso, acho sou fruto de um choque de sangue, sou mestiço, com o lado terráqueo dominante, a recessividade genética ficou para meu oculto lado espacial.

Repito sobre nossos filhos, sentimento extensivo aos amigos: Nem por isso deixamos de tanto amá-los, de tão felizes ficarmos quando aqui, em nossa modorrenta vilazinha nos visitam e compartilham alegres de nosso tédio. Tédio?
Viva nosso tédio.







06 de junho 2017 - Reminiscência

Publicado em Uberlândia Hoje

segunda-feira, abril 24

Óculos

Pronto, lá se foi o boi com a corda. É cada uma que parece duas. Tenho me aventurado muito pelo centro de nossa cidade. Voltei a sentar em praça como em pleno fim de semana, (mais essa, não se hifeniza fds), e puxar prosa com desconhecido. Vendedor de pequi veio do norte de Minas e me conta isto de peito estufado, sotaque cantado de linda terra. Montes Claros? Pergunto certeiro

E não é? Responde em pergunta. De Moc mesmo! Apelido carinhoso das paragens de gente marcante como o antropólogo e escritor Darci Ribeiro, da artista plástica Yara Tupynambá e José Dias Nunes. Sabe quem é não? Pois não é que é nosso querido Tião Carreiro, da música sertaneja de raiz autentica, sem Telós e ridículos "ai se te pego"? Tomara que este se redima no espetáculo "Bem Sertanejo – O Musical", que vem por aí.
Para compensar tem Seo Godofredo e filho Beto Guedes.
Terra de Marília Fonseca Rocha, professora, colega veterinária e uma das maiores sanitaristas na área de zoonoses que conheço e que admiro como a poucos contados nos dedos.

É também terra de Dona Nazinha, Terezinha Freire, minha avó materna. É muita gente boa, vou listar mais não, pois aí perco o fio da meada e história fica sem contar.
Prosa assim nasceu só de um perguntar pelo preço da dúzia de pequi em nossa agradável praça.

Vendedor de bilhete puxou assunto, falou do tempo dos gansos na praça e lhe contei que muitas carreiras me deram na época de estudante, quando ali cortava caminho para pegar ônibus rumo a lonjura deserta, o ermo que era o campus Umuarama.

Era cedinho que só. Deixei-me ali ficar, contando pombos, esperando loja abrir para consertar óculos. Havia rolado por cima deles noite passada ao dormir relendo Dante Alighieri. Quisera eu ser Virgílio, senhor da razão e mão segura a conduzir Dante pelas terras do purgatório e inferno.
Sem eles, meus óculos, mal conseguia observar escorpiões no biotério que me restou. Serpente então, nem de longe.
O ar fresco da manhã me permitia, mais uma vez, apreciar o acordar de uma cidade que amo de paixão.

Um casal de idosos bem idosos, atravessou praça de mãos dadas. Observei em êxtase. Crescemos enquanto cidade sem perder a beleza de cotidiano puro.

O ranger e o raspadear de portas de enrolar se abrindo me trouxe de volta.
Levantei do banco, deixando fresca sombra para trás. A fonte lá adiante ensaiava alguns acordes enquanto afinava a belas águas dançantes.
Passei rente ao lago e pude observar criança bem segura pela mãe que, lá de um alto, tentava tocar as carpas preguiçosas que, como peixes de puro cristal e ouro líquido, deslizavam ainda na sombra. Talvez andasse esperando comida, a hora do trato, cevadinhas que só.
Segui meu trecho flutuando em paz.

A loja de consertar óculos ainda não estava aberta. Encostei-me ao muro em frente, paciente. Tempo de ver gente em roda de uma outra loja logo adiane. Coloquei tento. Era o Seo Salomão, com rosto em sangue. Tinha acabado de ter sua loja assaltada e foi covardemente agredido por gente armada.
Misto de raiva, impotência e tristeza. Uma bela manhã não merecia tanta ruindade. Sua esposa vociferava e com toda razão, frente tamanha violência.
Deixei os óculos para tratamento, primeira e triste figura a entrar na ótica.
Só se falava do assalto. Preço alto estamos a pagar.
Em suspiro saí a buscar moinhos de ventos. Eu e meu Rocinante imaginário.
E lá se foi o boi com a corda. Acorda!







Publicado em Uberlândia Hoje  a 23 de Março de 2017



terça-feira, abril 11

Pescaria

As histórias são tantas que se perdem no tempo. Um acontecido, com o passar das datas vai se tornando lenda, cresce ou diminui. Conforme o contador, acrescenta-se pontos e contos. Que nem cupinzeiro, brota miúdo, um remover de terra sem de muito notar, num devagar quase morto vai tomando forma e jeito, desenvolve verruga imensa nascida do chão, acabando com pasto e tudo quanto há. Vira cidade organizada. Só quem gosta é tamanduá e cascavel. Um pra comer, outro pra moradia segura. Protege até contra descontrole de queimada que quando vem é destruição que só.

Assim, histórias nascem do andar das gentes.
Uma delas aconteceu, contam, lá pelas beiradas do Mato Grosso. Naquele tempo um só, nada de Sul e Norte, era Mato Grosso e pronto. Gigante de beleza e fartura, muita mata mesmo. Soja era nem em sonho. Terra virgem e bela.
Ali nesse pedaço do paraíso se deu o acontecido. Se foi assim de fato, difícil dizer, pois, como disse, o. tempo se encarrega de mudanças em toda banda, no corpo, nas paisagens, nos sonhos, nos contos

O rio era o Salobra, que nasce miúdo na Bodoquena, ruma feito sucuri de cristal beirando sempre a crista da muralha de pedra, indo dar longe no Miranda.

Pois sim, eram dois. Primeiro um que chegou na beira do rio com ideia de buscar peixe para a janta. De nascimento paulista e, por assim ser seu nome poucos sabiam, era tratado como Paulista por todos. O sol ainda andava torto no céu, faltava longe para se esconder no rio. Era ali que sumia tingindo de mil cores o Salobra, em festival de sem fôlego não deixar de sentir o mais duro dos homens.

Agachou Paulista sentando no calcanhar da botina, iscou meio lambari, resultado este e mais um saco, de tarrafada no meio de lufada, tinha isca pra mais de metro.
Pois ali deitou anzol. Não passou muito tempo chega de manso um conhecido do moço, que por nome ninguém chamava, mas era ali tratado de Mineiro, pois como reza a cartilha do certo/errado de lá, das Gerais tinha vindo.
Encostou em um Carandá erado. Pouca sombra mas tronco forte. Calmo, enrolou um palheiro e sem palavra de nada dizer, deu baforada funda. Virou o cigarrinho para seu lado e, atento na brasa, deu sopradinha para não apagar.
Paulista mais abaixo, peixe nada de nem beliscar.
Hora e tanto passou no silêncio, som só de bugios mata e vento.
— Se fosse você jogava essa linha mais ali no alto, tem cara de pesqueiro rico, resmungou Mineiro.
É talvez razão tivesse, observando o pé de Acuri que deitava quase relando a água.
Quem sabe uma bela Caranha não tiro dali? Tem muita fruta caindo n’água, resmungou para dentro.
Mudou ponto, bando de araras arrancou em barulho nervoso e colorido, interromperam o comer com receio.
Mineiro desceu mais um tanto e se pôs meio longe ainda a pitar observando. Passou um tempo comprido. De novo em fala pausada:
— Se fosse você saia dessa sombra e ia lá na curva perto do remanso.
Paulista já fazendo ar de desgosto, para não fazer o pau cair a folha, para lá seguiu.
Por mais três vezes Mineiro palpitava novo lugar e mudava seu ponto de observar e peixe nem sombra.

O sol buscava pouso e nenhum peixe. Foi quando Mineiro, outra vez, começou a contar novo palpite.
Paulista explodiu em raiva contida, estouro de boiada, vermelho de irritação, veia do pescoço estufada, gritou ódio:
— Ô Mineiro dos infernos, pára pelo amor de todos os santos de dar palpite! Se acha que muito sabe, por que você não vem pescar?
Mineiro olhou para um lado, olhou para o outro, ciscou o chão com a ponta da botina, suspirou mansidão.
Tirou o chapéu devagar e, olhando bem dentro do olho de Paulista, falou baixinho:
— Eu não, num tenho paciência

William H. Stutz


Publicado em Uberlândia Hoje   9 de abril de 2017

segunda-feira, março 27

Mensageiro

Em dor, absolutamente só, fitava com olhar parado o nada. Teve tudo. Oportunidades e fortuna. Esta ainda preservava, apenas não podia dela mais desfrutar. Hoje era incapaz de erguer o braço, alguém tinha que lhe dar comida, trocar suas vestes, banhá-lo. Olhava para tantos cuidadores com olhar cinzento. Não os conhecia, nem seus nomes sabia. Sentia a falsidade de seus sorrisos piedosos. Com clareza se via naqueles rostos que tudo sempre fora falso, dissimulado. Buscava ao redor um olhar conhecido, alguém familiar, um irmão, um sobrinho, uma ama de leite, um amor verdadeiro. Como tê-lo agora se nunca cultivou tais preciosidades? Comprara tudo e todos que queria, e eles lhe fingiam afeto. Agora, sozinho frente à imensa janela aberta era incapaz de se levantar e cerrar suas abas. O frio lhe doía os ossos. Podia gritar irritado e sabia que em segundos um bando de interesseiros bajuladores ali estaria para lhe acudir. Deu preguiça. Deixou o vento frio lhe chibatar o rosto, era até prazeroso, aliviava as dores físicas.
O entardecer estava lindo. As montanhas, os tons de vermelho, o céu em chamas. Uma lágrima quase lhe escapa dos olhos. Deixou-se ficar em dor.
Repensava a vida vazia, que passou em lampejo.
Faria tudo diferente se tivesse outra chance? Talvez não. Fora forjado assim. Impossível mudar. Perdido em devaneios quase adormeceu. Não! Dormir não! Tenho que manter lucidez. Nada de jogar tempo fora.
Tempo, era o que não tinha mais. Sim, gastou todo seu estoque com avareza, intrigas, espalhando cizânia e raiva. Gritava com todoss tudo tinha que ser exatamente como queria. E agora? Um sem vontade própria a mercê de desconhecidos e vorazes fingidos, a espera de sua partida final.
Pensamentos em abundância excessiva. Sentia além das companheiras dores, um aperto no peito magro.

Uma mão pousou em seu ombro com carinho jamais sentido. As dores de imediato sumiram, o frio vindo da janela sumiu. Prazer, algo que há muito desconhecia, sentiu.
Sem coragem de virar o rosto, de olhos bem abertos, sussurrou:
 — Quem está ai? Quem é você? 
Uma voz de pureza ímpar respondeu em tom de canto:
 — Um amigo.
— Não tenho amigos, tenho interesseiros e abutres a me rodear. 
— Bom, você fez seu caminho, a escolha sempre foi sua.
Enrijeceu em pavor. 
— Você é um anjo? 
— Já me trataram como tal. 
Sentiu-se no ar um leve sorriso em tom irônico.
 — Então é a morte que veio me buscar, embargado em medos arriscou. 
— Não, não sou a morte. Ela nunca lhe chegará pelas costas. Um dia vai ter que lhe encarar frente a frente mirá-la nos olhos, pois ali estará toda sua vida e você a verá quadro a quadro. Mas não tenha medo, pois ela apenas a cessação da vida. É sempre calma. A morte é bela e encantadora.
—Mas quem é você afinal? 
— Um amigo simplesmente, sou parte de você.
 — E está aqui por quê?
— Você me chamou mesmo sem saber. Vivi todos estes anos escondido dentro de você, mas nunca pude me manifestar. Sua ira, seu ódio por tudo e todos, me afundava cada vez mais em solidão e tristeza.
— Mas por que agora?
— A sensação de mortalidade, de que não se é eterno, de certa forma abrandou seu pensar. Até os mais distantes já arriscam de ti se aproximarem. E não me refiro aos aproveitares ou corsários com sede de vingança e posses. Refiro-me aos que realmente conseguem hoje te querer bem.
— Posso ver seu rosto?
— Você o vê todo dia, só não percebe.
— Pode ficar comigo? Há tempos não sinto tamanha paz.
— Estive e estarei sempre com você. Partiremos juntos.
— Falta muito?
— Não sei dizer, mas o que importa? Repito, a morte é bela e libertadora, nada há o que temer.
— Fica mais.
— Estou aqui, basta chamar.

Vento forte fez estrondar folha da janela em barulho ensurdecedor, amplificado pelo vazio do enorme quarto as tábuas corridas do chão pareciam balançar em ondas.
Quase se levantou de salto. Rapidez juvenil virou-se em busca de alguém. O que viu foram sombras a dançar sob a luz de uma lua, que já se fazia dona do céu.
Teria sonhado? A doença, os medicamentos estariam a lhe criar sensações?
Deixou-se ficar. Não sentia tanta dor. A pressão em seu ombro ainda estava presente e, como fonte de fresca água, escorria por todo seu corpo.
Logo entraria um séquito de cuidadores e parentes a falar alto e sem parar. Prometeu para si que sorriria para todos e não resmungaria palavra.
Tinha agora consciência de que jamais estaria sozinho.







Publicado em Uberlândia Hoje 26 de março de 2017

terça-feira, março 21

O Julgamento

Silêncio sepulcral reinava no recinto. Podia-se ouvir a respiração arranhada de alguns asmáticos ávidos por suas bombinhas, mas sem coragem de usá-la naquele lugar. Uma tosse nervosa aqui e ali. A luz atravessava o vitral mais alto e projetava turbilhão de cores e movimentos, como caleidoscópio imenso.
Fazia calor. O único ventilador não dava conta de refrescar o suficiente, na realidade ele só fazia circular o ar morno de um lado para o outro.

Um ranger de porta se fez ouvir no fundo da sala. Ninguém ousou olhar para trás, baixaram-se cabeças em reverência ao réu que naquele instante adentrava escoltado por dois policiais quase a lhe pedir desculpas pelo que faziam. O som metálico de suas botas, o tilintar de metais de suas vestes, conferiam um ar ainda mais solene ao momento.
Baixinho todos, rezavam pedindo perdão preventivo.
O próprio juiz sentia-se impossibilitado de olhar o réu nos olhos e, com gesto largo, apontou a contragosto a cadeira onde deveria se sentar para a interpelação.

— Tenha a bondade de se sentar.
Com rosto sereno, agradeceu com aceno de cabeça e em movimento ágil, ao timbre de mil sinos de igreja, atirou sua capa para a esquerda e deixou-se ficar imóvel em elegante postura.
Seguiu-se pois o interrogatório de praxe.
— Nome por favor.
— Georgius, respondeu firme sem titubear.
— Certo, mas Georgius de que?
— Como assim de que? Perguntou o réu com voz firme, porém meiga.
O juiz, um tanto sem graça, emendou: tipo sobrenome Sr. Georgius, está aqui no formulário. Nome, nome do meio, caso houver e sobrenome. Tenho que perguntar. Sabe como é a burocracia, se deixar uma campo em branco, o computar trava.
— Sei, acompanho há séculos a evolução tecnológica, mas serei franco, não me lembro de sobrenome.
— Vou colocar três pontinhos aqui no campo e ver o quê acontece.
— Funcionou! Em alegria quase infantil comemorou o juiz.
— Ocupação?
— São tantas, meritíssimo, mas para simplificar coloca aí: soldado e pronto.
— Naturalidade?
— Anatólia, na Turquia
— Uai, mas aqui diz Capadócia!
— E está correto, Capadócia é uma região de Anatólia.
Se perguntarem ao senhor onde nasceu o que responderia?
— Diria o nome da minha cidade!
— Não diria o Estado de¬ origem correto?
— É, tem lógica.
O senhor sabe o motivo pelo qual aqui está?
— Dizem que uma tal de APDD me processou por maus tratos e caça ilegal.
— E o que o senhor tem a dizer a respeito?
— Olha senhor juiz, estou no ramo há muito tempo, faço o que me pedem. Defendo mocinhas em perigo, protejo afetos de todo tipo de maldade. Um time de futebol contra a minha vontade até me adotou como símbolo. Para chegar até aqui já fui preso, torturado, humilhado e até perdi a cabeça. Mas, para tanto, tenho que seguir minha sina queira a APDD ou não. Sina, fado ou, se preferir, destino, assim tem que ser. No mais, ele e eu nos tornamos grandes amigos. Nossa imagem está associada, na realidade ao que encenamos. É um grande teatro, que está em cartaz há séculos e não pretendemos parar agora. Quantas pobres almas iriam sofrer se não tivessem a quem recorrer em aflição? E os fabricantes de camisetas e medalhinhas? Já pensou no desemprego? A crise está brava. Isso sem falar dos soldados, cavaleiros, fazendeiros e agricultores, de países como Inglaterra, Portugal, Geórgia, Lituânia, Catalunha, Sérvia, Montenegro e Etiópia; das cidades de Londres, Barcelona, Gênova, Ferrara, Régio da Calábria, Friburgo em Brisgóvia, Moscou e Beirute. Sou padroeiro de todos eles.
O senhor assume a confusão geral?

 E essa APDD – Associação de Proteção dos Direitos dos Dragões, já conversou com meu dragão para ver se lhe faço mal? Nunca. Nem nome deram ao pobre. Eu cuido, trato, vacino, levo no veterinário quando está doente, dou carinho e muita amizade e cumplicidade. Vez ou outra ensaiamos uma lutinha para ganhar a vida, onde eu o “mato”. Entendeu senhor juiz? É teatro, performance e nada mais. Já atuamos muito mais do que Deborah Kerr e Yul Brynner em o “Rei e eu”. Claro, nunca estivemos na Broadway, mas nosso palco é um astro de verdade! Meu querido amigo e companheiro estamos em cartaz há muito mais tempo. Repudio a acusação veementemente!

O Senhor juiz baixou a cabeça, avaliando o tamanho da bronca que estava em suas mãos. Firme no malhete, bateu com vigor três vezes proclamando:
— Caso encerrado! Considero o réu Georgius da Capadócia inocente e a acusação da Associação de Proteção dos Direitos dos Dragões improcedente. E tenho dito!
Sob aplausos e cantos de alegria, nosso Jorge, São Jorge, venceu mais um belo combate contra aqueles que querem que ele suma.
Salve Jorge!






Publicado em Uberlândia Hoje em 19 de março de 2017